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Review – Alan Wake: Terrou ou Aventura?

Protagonista fraco e indecisão de gênero marcam game que tinha um grande potencial.

250px-Alan_WakeFicha Técnica: 

Alan Wake

Lançamento: Maio de 2010

Desenvolvedor: Remedy Entertainment

Modo: Jogo eletrônico para um jogador

Plataforma: Xbox 360, Microsoft Windows

Estúdio: Remedy Entertainment, Microsoft, Microsoft Studios, Nordic Games

Gênero: Ação-aventura, Survival horror, Tiro em terceira pessoa

Alan Wake foi lançado como um dos principais games exclusivos para o Xbox 360 em maio de 2010. Na época, foi extremamente bem recebido pela crítica, venceu alguns prêmios e até mesmo ganhou rumores sobre uma suposta sequência.

Desde sempre tive vontade de experimentar a aventura proporcionada por esse jogo, mas nunca surgiu a oportunidade, até esse ano de 2016. Isso porque em 2012, o game ganhou uma versão para Windows, com gráficos melhorados, embora o conteúdo seja exatamente o mesmo da versão para o 360. Eis que, navegando pela Steam em uma daquelas gigantescas promoções, encontro o jogo pela bagatela de R$ 7,99. Não pensei duas vezes antes de colocar no carrinho de compras.

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Começamos conhecendo Alan, um famoso escritor de best-sellers de terror e ficção que se encontra em uma terrível fase criativa, ao completar quase dois anos sem desenvolver sequer um manuscrito. Assim, ele e sua esposa Alice decidem fazer uma viagem até a pequena cidade de Bright Falls, na esperança de que Alan recobre sua típica inspiração para relatar contos de assombração. Não direi muito mais que isso pois considero qualquer coisa a partir dessa pequena introdução um indício de fortes spoilers.

De início, o jogo até impressiona. O clima de tensão é muito impactante nos dois primeiros capítulos. A sensação de “vai dar ruim” te acompanha o tempo inteiro, e é praticamente impossível não tomar alguns sustos com luzes piscando e estranhas pessoas saindo às avessas de trás de alguns móveis presentes no ambiente. Após o decorrer do principal acontecimento da trama, somos apresentados ao sistema de combate que é bem simples, porém intuitivo e funcional. A empolgação sobe à cabeça e, até o fim do capítulo dois, o jogador chega a pensar que realmente pode estar à frente de uma obra prima épica… E é aí que as frustrações começam a aparecer.

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O problema é que a partir do capítulo 3, o jogo se perde completamente. Alan Wake não consegue definir se é um game de survival horror ou se é um típico adventure. O pior é que não consegue ser nem um, nem outro. Os combates se tornam extremamente cansativos, uma vez que não existem variações de inimigos, nem aprimoramento de armas ou habilidades. Tudo fica tão repetitivo que simplesmente fica impossível se assustar com os vultos projetados pra fora dos troncos das árvores de densas florestas. A estória, que seria um dos pontos fortes do jogo, fica um tanto quanto confusa e desvenda os principais mistérios do enredo de uma forma muito rasa e pouco impactante. Além disso, Alan Wake pode ser considerado como um dos piores protagonistas da história dos videogames. Simplesmente chega um momento que dá nos nervos controlar um ser humano tão sem personalidade e sem expressão como este. Quem dera se tivéssemos um Mario Bros ou um Kratos em todos os jogos que colocássemos a mão.

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Contudo, os gráficos e cenários do jogo são bem bacanas, principalmente se levarmos em conta o seu ano de lançamento. As texturas e sombras são muito bem trabalhadas e auxiliam positivamente o clima de medo e de tensão proposto pelos desenvolvedores (repito, ao menos no início da trama). O problema é que a física do jogo é péssima, e a interação de Alan com os objetos do cenário é pífia. Parece que uma coisa ou outra não era para estar ali e você sente estar jogando algo que foi lançado na correria sem qualquer indício de polimento. Esse fato fica ainda mais evidente nas poucas partes em que precisamos dirigir alguns automóveis, uma vez que os movimentos são completamente travados e a mecânica extremamente dura e difícil.

Portanto, Alan Wake é um jogo com um incrível potencial, mas que não conseguiu mostrar a que veio. Os pontos mais fortes do jogo (enredo e clima de tensão) se perdem rapidamente, uma vez que todas as ações e “puzzles” (se é que podemos chamar assim, pois são uma ofensa à inteligência do jogador) são exatamente iguais, o que torna a repetição sempre presente.

A tentativa de mescla entre survivol horror e ação/aventura não foi um completo desastre, mas poderia ter sido muito melhor. A impressão que se tem é que o jogo não conseguiu definir exatamente o seu estilo e fica no meio termo. Ou seja, falta personalidade (um dos principais fatores para se avaliar um game). Alan Wake não é ruim, mas passa longe de ser um ótimo jogo. Se você tem bastante tempo livre, paciência e um dinheirinho sobrando, a compra pode até valer a pena. Porém, é fato que existem muito mais videogames de horror e aventura dignos de sua atenção do que este.

 

Review – O Curioso Caso de Benjamin Button e as voltas de uma vida diferente

Mais do que o curioso fato, longa-metragem repercute questões intrínsecas do viver.

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Ficha Técnica:

O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button)

Direção: David Fincher

Produção: Kathleen Kennedy, Frank Marshall e Ceán Chaffin

Roteiro: Eric Roth e Robin Swicord

Gênero: Drama

Distribuição: Paramount Pictures e Warner Bros.

Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Taraji P. Henson, Julia Ormond, Jason Flemyng, Jared Harris e Tilda Swinton

Lançamento: 2008

 

O Curioso Caso de Benjamin Button é um filme de 2008 dirigido por David Fincher e estrelado por Brad Pitt e Cate Blanchett, baseado no conto homônimo de 1921, de autoria do escritor F. Scott Fitzgerald. O longa conta a história de Benjamin Button, um homem que nasceu com características de um idoso de aproximadamente 80 anos e, com o passar do tempo, rejuvenescia. Partindo dessa premissa simples, David Fincher e os roteiristas desenvolvem um filme recheado de momentos tocantes que tangenciam questões comuns e, ao mesmo tempo, complexas da vida.

Tecnicamente, a obra é digna de elogios. O trabalho de maquiagem e de efeitos especiais é muito eficaz em caracterizar a idade dos atores e o momento vivido pelos personagens. É perceptível também como a fotografia consegue transpor, através das tonalidades de cores empregadas, o momento histórico vivido (como a infância de Benjamin nos anos 20/30 e o tom em sépia da película). Aliado a esse recurso o trabalho de figurino contribui muito bem para marcar o tempo e permitir maior imersão ao espectador. Os cenários não chegam a ser um grande destaque, mas também passam longe de comprometer. A trilha sonora, embora esquecível, não chega a desagradar.

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Obviamente, Benjamin é o centro do filme e acompanhar sua particular história é uma tarefa longe de ser divertida. O protagonista não é carismático, não tem um desenvolvimento interessante (aliás ele é praticamente unidimensional) e não demonstra coerência em algumas de suas atitudes. A maioria de suas ações e motivações são justificáveis apenas quando envolvem descobrir as diversas circunstâncias que a vida proporciona. Nestes momentos o filme acerta de uma maneira sutil e comovente. A atuação de Brad Pitt é satisfatória, alternando ótimos momentos e outros pouco relevantes. Já Dayse Fuller (Cate), a grande paixão de Benjamim, têm dúvidas, ações, motivações e desenvolvimento cabíveis, apesar de sua relação com aquele ser apenas satisfatória, muito por causa, também, da atmosfera fria e melancólica que David Fincher mantém durante todo o longa. A mãe de Benjamin, Queenie (Taraji) cumpre bem seu papel, mesmo que seja representada de maneira estereotipada. Quanto ao pai de Benjamin, Thomas Button (Flemyng), demonstra-se um tanto desequilibrado e inconsequente, não só pela sua atitude vista no início do filme, como pelas suas ações antes do fim que o mesmo teve na trama. Já a filha de Cate, Caroline (Ormond) é a pior personagem da obra, inútil durante todo o longa, tem reações praticamente nulas frente às grandes revelações que tem ao longo da película.

O filme de David Fincher tem um roteiro bastante problemático. A começar pelo desenvolvimento da história que, estruturado em flashbacks que simulam a leitura de Caroline ao mesmo tempo em que Benjamin os narram, passa por vários momentos da vida de seu protagonista acompanhando-o em suas desventuras e descobertas. Nada de anormal, a não ser que percebamos o clima melancólico que insiste em ser mantido durante todo o longa, além de cenas dispensáveis (como a cena de Benjamin e sua mãe na igreja) que aumentam a duração e tornam a película demasiadamente cansativa. Nota-se também uma falta de originalidade que beira o plágio de Forrest Gump (já pararam para contar quantas semelhanças existem entre ambos?). Não por acaso o roteirista é o mesmo. Embora o meio do filme seja bom em diversas passagens, seu início e seu final são no mínimo estranhos, com cenas mal dirigidas no início e não muito coerentes no final. Em alguns momentos parece faltar planejamento ao roteiro, como, por exemplo, a equivocada adição do fator furacão Katrina, que nada contribui para a história.

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O grande mérito de “O Curioso Caso de Benjamin Button” está em não ser uma história sobre um cara que rejuvenesce, mas sim uma obra sobre passar pelas etapas da vida, aprender e se desenvolver com elas, e nunca deixar de valorizar a grandiosidade dos momentos, das pessoas e dos percalços que enfrentamos enquanto seres viventes. A abordagem da precoce velhice de Benjamin, de suas primeiras experiências adultas, de seu primeiro trabalho, entre outras mais, é feita de maneira singela e bastante eficaz. Lidar com o crescer, com adversidades, com as coisas boas, com os amores, com as relações construídas e rompidas, com a família, com a morte… tudo isso está lá não porque é o Benjamin Button, mas porque são situações que todos passamos e muitas vezes não percebemos como cada uma delas contribui para que nos tornemos quem nós somos. No ponto mais acertado de David Fincher ele parece querer gritar para nós: “Estão vendo? Todos passam por processos semelhantes, até o Benjamin Button!”.

Ainda que tenha problemas com um roteiro sem originalidade e capacidade de entretenimento, e que seus personagens transmitam pouco carisma, “O Curioso Caso de Benjamin Button” é uma obra com qualidades que merecem ser destacadas, como o ótimo trabalho técnico e uma abordagem temática muito eficiente em subjugar aquele que deveria ser o fato central do filme. Impor-se sobre o que é o grande chamativo da obra é um feito notável e é o maior mérito da obra, por isso a forma como ela evidencia questões simples e intrínsecas da vida merecem ser elogiadas e contempladas pelo seu público.

Review – O Regresso e a luta substancial pela vida

Enquanto houver esperança, lute, sobreviva, viva!

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Ficha Técnica:

O Regresso (The Revenent)

Direção: Alejandro G. Iñárritu

Produção: Arnon Milchan, Steve Golin, David Kanter, Alejandro G. Iñárritu, Mary Parent, James W. Skotchdopole e Keith Redmon

Roteiro: Mark L. Smith e Alejandro G. Iñárritu

Gênero: Drama

Distribuição: 20th Century Fox

Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson, Will Poulter e Forrest Goodluck

Lançamento: 2015

Lançado nos Estados Unidos em dezembro de 2015, O Regresso é um filme de drama dirigido por Alejandro González Iñárritu, baseado no romance homônimo de Michael Punke, cuja história se inspira na fantástica aventura vivida por Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), um explorador e caçador de peles que em 1823 fora atacado por um urso e, abandonado a mercê por seus companheiros de expedição, rastejou por mais de 300 km de onde fora deixado para o acampamento de onde viera.

Por si só, este O Regresso é a adaptação da adaptação, contendo licenças e mudanças consideráveis em relação à obra original e, muito provavelmente, aos fatos ocorridos de verdade com Glass. A primeira, e maior, nota a si considerar é que, diferente da obra original, o personagem vivido por DiCaprio não rasteja até seu destino, tal como na história. Indo além desse detalhe, outros pontos primordiais são alterados como o fato do filho de Glass acompanhá-lo durante a expedição, diferentemente da original, onde o mesmo acabara de nascer e estava em casa com a mãe. Retornarei na questão do roteiro posteriormente.

O Regresso é, tecnicamente, um deslumbre visual. A fotografia do filme é espetacular e as gravações utilizando luz natural não comprometem, muito pelo contrário, trazem uma imersão que, aliada aos planos abertos empregados, proporcionam uma imersão bastante eficiente. Os cenários são sensacionais e a variação de ângulos é eficiente em contrastar a imponência da natureza perante a pequenez (literalmente, em algumas cenas) do homem. Há um equilíbrio bom em alternar planos gerais, mostrando os cenários e o ambiente, e planos fechados, com closes que captam a expressividade visceral dos personagens, um elemento narrativo crucial do filme. A batalha inicial do filme é um convite ao espetáculo visual a que seremos submergidos, visto que é dirigida com uma sequência fluida e sem cortes, expondo a ferocidade da batalha de uma forma bem eficiente. A trilha sonora, a maquiagem e os efeitos especiais são utilizados de maneira exemplar e algumas cenas, como a batalha de Glass contra a Ursa, a caracterização de seus ferimentos ou mesmo a cena nas entranhas de um cavalo, são dignas de nota.

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Os personagens são pilares importantes na obra. Hugh Glass é sustentado e desenvolvido por uma atuação fenomenal de Leonardo DiCaprio. Ele sustenta e carrega a história e é carregado de expressividades e dramaticidades que, num papel praticamente sem falas, beira o absurdo. Contudo, o personagem é preenchido com motivações que vão além do instinto de sobrevivência e do valor insuperável da vida, carregando o peso dramático também para desejos vingativos e, de forma desnecessária, limitando a maior mensagem da obra. Interpretado de maneira notável por Tom Hardy, John Fitzgerald é um personagem frio, racional, ganancioso e cruel que, embora condenável, justifica suas ações pelo seu passado e por suas claras e expressivas inquietude e insanidade (repare como o olhar de Hardy demonstra exatamente estes sentimentos). Ele também é uma exemplificação clara e importante do egoísmo humano. Domhnall Gleeson interpreta o capitão Henry, que embora não comprometa, também tem pouca imposição em cena, revelando atitudes práticas, cômodas e covardes, como deixar seu tripulante com o cara que mais o odeia em seu momento de maior fragilidade. Will Poulter interpreta Jim Bridger e é útil ao mostrar o homem em um dilema ético e moral enquanto é completamente subjugado pelo medo. Cumpre seu papel de forma eficiente. Já Hawk, interpretado por Forrest Goodluck, é o personagem mais descartável do filme, não pelo desempenho do ator, mas pelo fato de ele ser o desencadeador de motivações extras desnecessárias ao personagem de Hugh Glass.

Voltando ao roteiro, O Rogresso é construído a partir de alguns subplots: a luta substancial de Hugh Glass para manter-se vivo, a busca por vingança do mesmo, a jornada gananciosa de Fitzgerald, a volta do grupo do capitão Henry e a procura dos índios Arikaras pela filha sequestrada do chefe da aldeia. A grande questão é: precisava fragmentar tanto a história? É até compreensível que os roteiristas tentaram criar arcos e motivações para os personagens e os diversos núcleos da história, porém a grande sensação transposta é a falta de foco num enredo que deveria sem muito mais simples, tocante e poético do que acabou se provando. A luta de Glass pela vida, as diversas peripécias que acaba tendo de enfrentar e o impacto que elas causam estão lá, e são muito eficientes em mostrar o valor da vida e o imenso extinto de sobrevivência humano. O problema é que poderia ser muito mais poético e eficiente se não fosse fragmentado por flashbacks e delírios do personagem que em nada acrescentam a trama. A decisão de adicionar um arco de vingança também limita bastante àquela que deveria ser a mensagem do filme: “sobreviver porque o valor da vida é absoluto”. Não é incoerente, mas revela decisões e desenvolvimento não tão eficazes no resultado final e, totalizam um filme demasiadamente longo para o que realmente era necessário ser contado.

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Aprofundando nas temáticas de O Regresso, temos uma retratação muito boa da natureza humana, principalmente quando se trata de lutar contra o medo, enfrentar dilemas éticos e morais e provar o extinto de sobrevivência, todos apresentados em situações extremas, contribuindo para uma explanação intensa, cru e altamente realista desses comportamentos. O grande ponto falho fica por conta dessa introdução desnecessária de vingança e redenção, algo que contribui de forma negativa para a transmissão da mensagem principal do longa, infelizmente. Há também os sonhos e delírios de Glass, algo como se fosse questionar a linha tênue entre a vida e morte, entre viver no limite e se entregar a morte, pontos interessantes que nunca são trabalhados e se tornam apenas detalhes completamente deslocados no filme.

A qualidade de O Regresso é inquestionável, não somente no âmbito técnico como no trabalho de seus personagens principais e de suas ambições temáticas, extremamente relevantes na sociedade contemporânea. A obra é visceral e realista e consegue ser enfática e marcante em muitas de suas passagens. Pode-se questionar os pontos acimas citados e algumas adições não muito bem acertadas no roteiro, mas a verdade é que quando acerta, o filme é magnífico e isso também precisa ser levado em conta. Aliás, o valor absoluto da vida humana é sempre uma mensagem que merece ser vista, compreendida e repassada com toda a seriedade e eficácia possível.

Review – Os Irmãos Grimm, uma história dos criadores de histórias

Uma história aquém dos contos dos célebres personagens-título.

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Ficha Técnica:

Os Irmãos Grimm (The Brothers Grimm)

Direção: Terry Gilliam

Produção: Daniel Bobker e Charles Roven

Roteiro: Ehren Kruger

Gênero: Comédia, Aventura, Fantasia

Distribuição: Dimension Films

Elenco: Matt Damon, Heath Ledger, Monica Bellucci, Jonathan Pryce, Lena Headey e Peter Stormare.

Lançamento: 2005

 

Os Irmãos Grimm é um filme de 2005 que narra uma história fictícia envolvendo os célebres contadores de fábulas infantis Wilhelm e Jacob Grimm, respectivamente interpretados por Matt Damon e pelo saudoso Heath Ledger. Eternizados como os autores de Chapeuzinho Vermelho, Rapunzel, Branca de Neve e os Sete Anões, João & Maria, entre vários outros icônicos contos infantis, o filme é uma mistura de aventura, comédia e fantasia com um pouco dos elementos de muitas dessas histórias, resultando um enredo heterogêneo em possibilidades, mas pobre em engenhosidade e criatividade.

Ambientado na época das expansões napoleônicas, a película nos apresenta aos irmãos aqui caracterizados como trapaceiros que ganham a vida salvando os vilarejos de perigos como bruxas e demônios inventados por eles mesmos. Com suas trapaças descobertas pelas tropas francesas, os Grimm são obrigados a resolverem um incomum caso, que acaba se revelando um feitiço verdadeiro. Passam então a transitarem por elementos fantásticos que, ao longo da fita e de suas aventuras, são entrelaçadas com os contos acima citados.

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Visualmente falando, o filme não é impactante, apesar de suas cenas serem (em geral) bem construídas, sobretudo na parte da floresta, pecam muito por não conseguirem criar a tensão necessária a cena. A mistura de vários elementos já conhecidos não consegue um resultado original, ainda que a fotografia consiga cumprir seu papel de evidenciar o lado fantástico do longa com grande competência. A maquiagem e os figurinos se destacam, sobretudo quando vemos personagens que realmente devem ser feios e asquerosos para o espectador. Os efeitos especiais, no entanto, parecem demasiadamente velhos, especialmente na cena que um cavalo engole uma criança ou mesmo no lobo digital do filme.

Os personagens são um ponto controverso do filme, pois de um lado temos Will e Jacob que mostram uma boa dinâmica e não soam forçados ou repetitivos em nenhum momento. Os irmãos se desenvolvem juntamente com a trama e conseguem conduzir e atraírem para si toda a atenção do filme, pontos fortíssimos para protagonistas. Suas personalidades contrastantes são bem conduzidas e rumam a ações e resoluções cabíveis, até mesmo quando Will (cético) encara a “realidade da fantasia” que estava enfrentando. Por outro lado, o elenco de apoio, sobretudo Marcurio Cavaldi (Peter Stormare) e o General Vavarin Delatombe (Jonathan Pryce) são demasiadamente antipáticos e irritantes. Lena Headey não compromete como Angelika, mas também não consegue se destacar, servindo no fim como alternativa para o plano da vilã e como par romântico (?) para os irmãos. Já Monica Bellucci mesmo em pouco tempo de cena, consegue ser marcante, embora seu trabalho não seja nada excepcional.

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O ponto mais falho de “Os Irmãos Grimm” é o roteiro. O filme é uma mistura de comédia e aventura, porém não é uma aventura cômica, tampouco uma comédia com elementos de aventura, um meio caminho de ambos, inconclusivo sobre si mesmo, que revela uma estranha indecisão do diretor e/ou roteiristas. Os elementos fantasia estão lá, mas eles juntam-se ao restante para criar um simplório e previsível roteiro. Decisões clichês como sacrifícios humanos e roubos de beleza e juventude, aliados a necessidade pré-estabelecida de misturar os elementos dos contos dos irmãos Grimm tornam o desenvolvimento, a originalidade e o planejamento demasiadamente óbvios e medíocres. Diante disso, somos frustrados com uma história de aventura pouco envolvente. Além disso, poucas cenas de comédia conseguem cumprir seu papel, mostrando um timing cômico incapaz em diversas oportunidades.

Diante do já exposto, fica clara a ineficácia do filme como gênero aventura e como gênero comédia. A fantasia funciona como um atrativo, mas narrativamente não contribui ao roteiro. Para completar, somos “premiados” com um final previsível, sem graça, chulo (afinal qual foi o par formado?) e covarde (sim, aquele personagem deveria ter morrido!). Como não há relevância temática nem trabalho construído para isso no filme, terminamos a película com uma sensação de assistir um simplório passatempo, capaz de entreter aos menos exigentes e de revisitar de forma diferente (embora pouco original) os clássicos contos infantis. Como resultado final, um longa muito aquém das histórias dos célebres irmãos Grimmm. Infelizmente.

Review – Divertida Mente: uma explosão de criatividade

Um dos trabalhos mais ambiciosos e complexos da Pixar.

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Ficha Técnica:

Divertida Mente (Inside Out)

Direção: Pete Docter

Produção: Jonas Rivera

Roteiro: Meg LeFauve, Josh Cooley, Pete Docter

Gênero: Animação, Comédia, Aventura

Distribuição: Walt Disney Pictures

Elenco: Amy Poehler, Phyllis Smith, Lewis Black, Bill Hader, Kaitlyn Dias, Mindy Kaling

Lançamento: 2015

Após seis anos sem lançar um trabalho original de grande impacto, a Pixar retornou com Divertida Mente, um triunfo brilhante. Lançado em junho de 2015 e dirigido por Pete Docter (o mesmo diretor de Monstros S.A. e Up!), esse é um dos trabalhos mais imaginativos, ousados e complexos já feitos pelo estúdio. A ideia básica é expor, através de “materialização”, as abstratas emoções que norteiam nosso pensamento, um argumento não exatamente original, mas magnificamente criativo em sua execução.

O filme tem início com Riley, uma garotinha, que logo após seu nascimento tem sua consciência criada e personificada através de emoções básicas do ser humano: Alegria, Tristeza, Medo, Nojo e Raiva. A seguir vemos uma sequência expositiva, na qual rapidamente somos integrados ao sistema regido por essas emoções e como elas afetam as reações de Riley, transformam-se em memórias e por consequência, servem de base para construir sua personalidade e seu caráter. Assim, temos um prólogo extremamente eficiente em apresentar a dinâmica do imaginativo subconsciente da protagonista, como também a ver crescer sobre tais momentos.

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O trabalho de design é novamente deslumbrante, tal como de praxe da Pixar. O character design das emoções é simples e eficiente e o trabalho de cores para distinguir e dar unicidade a cada uma delas contribui para a narrativa de forma simples, simbólica e objetiva. Um ponto que deixa um pouco a desejar é a expressividade das personagens, muito aquém de obras como WALL-E. Contudo, a criatividade em construir os mais variados cenários dentro da mente de Riley é imensa, e melhor ainda que eles contribuam para a narrativa e a exploração de sua própria personalidade. È notável que Alegria (a emoção protagonista do longa) esteja sempre brilhante, enquanto as outras apenas se diferem por cor, numa tentativa de mostrá-la, a princípio como a única emoção positiva dentre as cinco primordiais. Este conceito é genialmente quebrado posteriormente. Um ponto falho é a trilha sonora, completamente esquecível, diferentemente do que a Pixar costuma apresentar.

Divertida Mente é uma história sobre a mente humana. Mais do que isso, sobre a mente de uma garota aos 11 anos, entrando na pré-adolescência, que passa por uma mudança traumática em sua vida. É notável como o filme constrói a Riley, até o ponto de virada, como uma menina cheia de boas recordações, resultando numa criança alegre e despreocupada, tal como deve ser a vida de uma criança. Até então, Alegria dominava amplamente a “sala de comando” e Riley passava a maior parte de seu tempo feliz. Nessa nova etapa a mudança de casa (e de cidade), a nova escola e a chegada de uma idade com maiores responsabilidades, desencadeiam uma crise psicológica na personagem, estabelecendo o grande plot do filme.

Com as mudanças, Tristeza passa a ser mais ativa (de uma forma instintiva) e acaba, depois de alguns incidentes por se separar, juntamente com Alegria, da “sala de comando”. É então que vemos a trama subdivida em três faces: a aventura de Alegria e Tristeza dentro da mente de Riley para voltar à “sala de comando”; Nojinho, Raiva e Medo tentando conduzir as emoções da garota sem aquelas duas; e a própria Riley numa crise psicológica devido a seus problemas. Em sequência, há cenas brilhantes que enfocam o quão imaginativo são as ideias do filme, passando por Alegria e Tristeza no mundo dos sonhos, no imenso armazenamento de memórias profundas e no surreal imaginário infantil. Todas as ideias ali reforçam, juntamente com o conceito das “ilhas de personalidade” e das “memórias de base”, uma das grandes mensagens da obra: somos fruto de nossas vivências e das memórias que guardamos delas.

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Toda a construção e o desenvolvimento da história se completam com a própria construção da psicologia de Riley e do ser humano de uma forma geral. Alegria, a protagonista, foi feita para ser uma personagem totalmente unidimensional e assim ela o é em boa parte do filme. Aliás, a forma como ela age até certo ponto é irritante, mas ao mesmo tempo diz muito sobre como as pessoas (e a mídia) querem impor uma necessidade incessante de felicidade e/ou transparecer continuamente a mesma. Contudo, no ponto mais alto do filme, justamente o ponto onde Alegria muda de atitude, ela sente tristeza e, por uma série de fatores, entende finalmente a necessidade desse sentimento para o amadurecimento e torna-se, de uma maneira subversiva com o que ela mesmo representa, uma personagem tridimensional.

Tristeza, antes oprimida por Alegria, mas sem nunca querer prejudicar Riley, acaba por fim compreendendo seu papel e, tem em Bing Bong (amigo imaginário de Riley) aquele que, numa cena sensacional, a ajuda em sua descoberta. Nojinho, Raiva e Medo, não possuem desenvolvimento, mas funcionam muito bem em seus papéis e nas piadas que desenvolvem. Também funcionam em conjunto com Alegria e Tristeza e servem como explanações muito interessantes quando são mostrados no consciente de outras pessoas que não a Riley. Nota-se, por exemplo, que na mãe da nossa pré-adolescente é uma Tristeza quem lidera, no pai, uma Raiva, reflexos de personalidades maduras e já consolidadas.

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Todas as construções de mundo, o visual, a narrativa e o desenvolvimento dos personagens de Divertida Mente culminam em suas complexas e, magnificamente bem trabalhadas, ideias. A mistura das cores nas memórias de base revela que somos fruto de memórias que guardamos de experiências e emoções vividas, formamos caráter e personalidade a partir disso. Mais do que isso, a tristeza é um sentimento tão importante na condição humana quanto à alegria e um crescimento pleno e saudável passa pela mistura de sensações diversas e antagônicas. O longa também é sutil em evidenciar a complexidade do amadurecimento, da formação de personalidade e caráter de uma forma multicolorida e minimalista. É notável como, à medida que Riley cresce, a mesa de controle da sala de comando torna-se cada vez maior e mais complexa, uma forma sutil e genial de mostrar a complexidade do crescer.

Divertida Mente é visualmente rico, cheio de cores e de vida, repleto de energia e piadas sutis, bem elaboradas e nunca cansativas. O roteiro é previsível, mas sua execução é uma explosão de imaginação contemplativa. Sobretudo é um trabalho que aborda temas profundos, humanos e complexos, dosando perfeitamente sutileza e ousadia numa das obras mais notáveis da Pixar. A natureza humana, a psicologia do amadurecimento e a formação da personalidade, tudo isso está em Divertida Mente, e é incrível como um filme infantil tenha a ousadia de trazer temas tão fortes e tão sérios sem perder a simplicidade e a pureza necessária para seu público.

Review – Deadpool: anti-herói, carismático, insano…

Referências, humor ácido e quebras da quarta parede… Esse é Deadpool.

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Deadpool

Direção: Tim Miller

Produção: Simon Kinberg, Ryan Reynolds e Lauren Shuler Donner

Roteiro: Rhett Reese e Paul Wernick

Gênero: Ação, Comédia, Fantasia

Distribuição: 20th Century Fox

Elenco: Ryan Reynolds, Morena Baccarin, Ed Skrein, T. J. Miller, Gina Carano e Brianna Hildebrand

Lançamento: 2016

 

Após fracassar como Deadpool em “X-Men Origens: Wolverine” de 2009, e também como Lanterna Verde, no filme homônimo de 2011, ambos não exatamente por sua culpa, mas pelos diretores não souberem exatamente o que fazer com tais personagens, Ryan Reynolds retorna às telas para viver o falastrão mercenário da Marvel e mudar (para melhor) sua história no mundo cinematográfico dos super-heróis. Não que Deadpool seja exatamente um herói, mas vocês entenderam.

Deadpool já começa com uma apresentação subversiva, utilizando os créditos iniciais para satirizar o próprio personagem e toda a equipe de produção. O longa tem início, de fato, com Deadpool em um táxi, indo para um confronto enquanto dialoga com o taxista. Em meio à progressão do roteiro, somos interrompidos pelo protagonista que nos conta sua própria história. Basicamente é isso, temos uma linha temporal a ser seguida, mas constantemente interrompida para nos revelar o passado que o fez chegar a já conhecida situação presente. Uma fórmula muito simples e usual, mas sustentada pelo carisma e humor ácido de seu protagonista, juntamente com os artifícios da quebra da quarta parede.

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Tecnicamente, Deadpool é bastante competente. Embora tenha um orçamento baixo se comparados aos atuais filmes do gênero (algo inclusive também satirizado pelo personagem de forma bastante cômica), consegue ser eficiente na maioria de suas cenas. A variação de ângulos é muito bem utilizada em conjunto com o personagem, às vezes a câmera ajuda na quebra da quarta parede, outras, evidencia certas “partes” do uniforme (e do corpo) do protagonista, trabalhando com suas falas cheias de acidez cômicas. Há uma notável diferença de tonalidade de cores quando Wade Wilson está em cena e quando é Deadpool quem comanda a ação. No primeiro vemos cores mais frias e uma iluminação menos atraente, ao passo que no segundo vemos cores muito mais vibrantes e uma iluminação atrativa. O slow motion também contribui para a quebra da quarta parede e para a exposição do humor físico do filme, funcionando de forma muito eficiente. Somado a tudo isso, temos efeitos especiais e um trabalho de maquiagem muito bem feitos.

O maior destaque da obra é, sem dúvidas, o seu protagonista. Deadpool é hilário, sagaz, violento e irreverente. Com isso já teríamos um personagem bastante carismático, porém o filme trabalha-o de forma bem mais completa. Ao revelar o passado de Wade Wilson, vemos sua antiga vida de mercenário, contemplamos a construção de sua história de amor com Vanessa (Morena Baccarin), sua desolação com a descoberta de um câncer terminal e o surgimento de seus poderes após tantos pesares. Ryan Reynolds brilha como Wade Wilson, construindo um romance consistente e plenamente capaz de ser o estopim para as ações e resoluções futuras do personagem. Esse ótimo background, aliado a coerência da construção da personalidade do Deadpool e o desenvolvimento do mesmo, somam-se num protagonista imponente, extremamente interessante e capaz de segurar o filme sozinho. Valeu a insistência de Reynolds em trazer o personagem para um filme solo, o ator parece ter nascido para interpretar Deadpool, desde sua forma mais engraçada até a mais violenta.

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Já os outros personagens cumprem bem o seu papel. Par romântico de Wade Wilson, Vanessa é quem mais se destaca. Vital para o protagonista e para a trama, ela tem, em sua relação com Wade, um desenvolvimento visceral que culmina num amor convincente. Vale destacar a memorável cena de troca de “carinhos” entre o casal em datas de feriados. Colossus e Míssil Adolescente Megasônico (Brianna Hildebrand) aparecem de forma deslocada. Afinal, porque somente eles entre os X-Men? Deadpool subverte esse “erro” de forma genial: “Os diretores não tinham dinheiro para escalar mais atores do grupo do Professor X”. Uma piada digna de nota. Ainda assim, ambos (Colossus e Míssil Adolescente Megasônico) cumprem seu papel quando são necessários (dar mais opção de luta no último ato). Já o vilão Ajax (Ed Skrein), é cruel e forte, da maneira mais simples e direta que os quadrinhos trabalhariam. Não tem grande desenvolvimento, apenas faz acontecer. Funciona porque ele é o objetivo do Deadpool, e é este quem queremos ver.

Deadpool é um filme de diretrizes muito claras: evidenciar ao máximo a personalidade de seu protagonista. Assumindo isso, é como se todas as escolhas do roteiro e da direção fossem no intuito de contribuir para tal. A quebra da quarta parede, os diálogos, as piadas, os escolhas das cenas, das falas… Tudo está lá com esse intuito. O propósito é claro e, nesse aspecto, consegue ser engraçado e surpreendente num nível muito bom. Não só isso, a irreverência de Deadpool é um motor chave para manter o entretenimento do espectador sempre alto, o que faz do longa um filme muito divertido. Vale ressaltar que apenas Deadpool tem a consciência de ser um personagem dentro de um filme, diferente de Wade Wilson, isso contribui para contrastar o próprio caráter de suas histórias, e suas respectivas seriedades.

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Contudo, a espinha dorsal da história é de um roteiro extremamente clichê: herói conhece a garota, se apaixona por ela, um problema os impedem de serem felizes, um vilão destrói sua vida, esse vilão sequestra a mocinha, o herói vai resgatá-la ao lado de parceiros… Ainda que consiga subverter a narrativa de uma forma bem eficiente, escrachando a própria produção e os clichês do gênero, é incômodo ver que tudo isso tem base numa espinha dorsal extremamente genérica. Há, também, uma lacuna de história perdida no filme. Em certa parte, Deadpool une o flashback ao momento presente da trama, contudo não há uma referência sequer a quando o mesmo entrou em contato com o instituto Xavier, algo que já havia acontecido no momento presente. Poderíamos subentender que nesse meio tempo ele foi procurado pelos mutantes e convidado a se juntar aos mesmos, mas subentender não é o ideal nesse caso. Mais 10 minutos de projeção poderiam preencher esse espeço e tapar esse buraco do roteiro. Ainda por consequência da base genérica sobre a qual se sustenta a história, somos premiados com um final extremamente previsível. Por sorte, o carisma e o humor de Deadpool conseguem nos surpreender, salvando a previsibilidade em momentos chaves (como não lembrar da máscara sob a máscara?).

Outro ponto fortíssimo em Deadpool são as referências. Recheado delas, a obra premia aqueles capazes de pegar todas (ou quase todas), retirando sorrisos do espectador com piadas e críticas pontuais, referenciando atores, autores, diretores, quadrinhos, e tudo mais que você imaginar, quer seja do próprio Deadpool, quer seja do próprio Ryan Reynolds, quer seja do tal “Polverine”. De fato, há referências para os mais variados gostos, sentidos e ocasiões. Recomendo estarem atentos e preparados para se deliciar com elas e aproveitar ao máximo.

Deadpool não é perfeito, não é o melhor filme de super-herói e não é a obra mais original do mundo. Entretanto, ele sabe muito bem disso, e justamente por não se levar a sério e conseguir tirar onda com basicamente tudo (seja dentro ou fora da tela), se destaca como um filme ousado, surpreendente, marcante, diferente, engraçado e, sobretudo, extremamente divertido. Para os fãs dos quadrinhos, do personagem e dos filmes de super-heróis, certamente um deleite imperdível pelas notáveis referências e pelo dinamismo, desenvoltura e carisma do anti-herói frente ao espetáculo que ele sabe estar protagonizando.

Nota: Há uma cena pós-crédito imperdível.

Review – Mad Max: Estrada da Fúria, um filme de tirar o fôlego

Um filme de ação no sentido mais puro da palavra.

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Ficha Técnica:

Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road)

Direção: George Miller

Produção: Doug Mitchell, George Miller e P. J. Voeten

Roteiro: George Miller, Brendan McCarthy e Nico Lathouris

Gênero: Ação

Distribuição: Warner Bros.

Elenco: Tom Hardy, Charlize Theron, Nicholas Hoult, Hugh Keays-Byrne, Rosie Huntington-Whiteley, Riley Keough, Zoë Kravitz, Abbey Lee e Courtney Eaton

Lançamento: 2015

 

George Miller retorna com Mad Max, franquia que o consagrou e, para nossa alegria, volta em grande estilo. Lançado em maio de 2015, este Mad Max: Estrada da Fúria é um filme de ação no sentido mais puro e simples da palavra (não por acaso a descrição de gênero é “somente” ação), premiando o espectador com um espetáculo sensorial e quantidades absurdas de adrenalina e energia, capazes de proporcionar a estupenda experiência que o gênero ação deveria dar.

Ambientado num mundo pós-apocalíptico que parece ter se tornado um grande deserto, onde a água e o combustível são materiais preciosos e a única cidade onde há água represada se tornou subordinada ao tirano Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne), Estrada da Fúria já começa com Max Rockatansky (Tom Hardy) sendo capturado pelos capangas do vilão. Tão logo somos apresentados a Imperator Furiosa (Charlize Theron), que trai Joe e foge da cidadela governada pelo tirano com uma grandiosa máquina de guerra e o harém particular do soberano cruel. Pronto, estão ajustados os pontos, temos um plot.

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Visualmente, Mad Max: Estrada da Fúria é um espetáculo deslumbrante. George Miller trabalha as cenas de ação com brilhante maestria, aliando uma ótima fotografia, edição e trilha sonora. O filme inteiro é recheado de tais cenas, apresentando poucos minutos de projeção para retomar o fôlego, e quanto mais o longa avança, mais conseguimos imergir na insanidade das mesmas. O diretor consegue filmar em diversos ângulos, e sempre usa planos abertos para dar a dimensão de tudo envolvido na cena, seja o cenário de fundo, sejam os carros, sejam os personagens (inclusive um carro de som gigante com um guitarrista tocando em meio às perseguições!) ou mesmo as explosões. A câmera é um show a parte, consegue captar os movimentos sem confundir o espectador e sem a tremedeira habitual dos filmes de ação, contribuindo ainda mais para a imersão na cena. Maquiagem, figurinos, iluminação e paleta de cores, estão todos lá, e todos se aquedam perfeitamente ao espetáculo.

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Em termos de desenvolvimento de história, temos uma relação íntima entre progressão do roteiro e filmagem. A narrativa se dá pelo espetáculo visual deslumbrante ao qual somos submergidos. Como o roteiro é muito simples, não há incoerências ou problemas estruturais graves. A construção de mundo é feitas nos primeiros 20 minutos e é suficiente para entendermos como aquele mundo funciona e como agem aquelas pessoas. Os diálogos são simplórios, mas nunca entediantes ou mal construídos. Os propósitos narrativos são cumpridos com maestria, pois a energia e a insanidade de Estrada da Fúria premiam o espectador com uma experiência de cinema fabulosa. A energia e o delirante ritmo do filme beiram a absurdos que precisam de uma forte suspensão de descrença em alguns momentos, o que nunca é bom. Por exemplo, na sequência da tempestade de areia é difícil crer que Max tenha sobrevivo, ainda mais depois de tudo que passara. O final do filme, embora agradável, é bastante previsível.

Os personagens seguem a ideia geral da obra, simplicidade e energia. Todos são assim, definidos por motivações claras, e todos se mostram cheios de energia. O que esperar de um autêntico filme de ação? Que seus personagens ajam. E é exatamente isso que os mesmo fazem. Max é atormentado pelo passado, quer viver sozinho e fugir das mãos de Immortal Joe. Não há desenvolvimento sobre seu passado, mas sua motivação é clara e ele consegue ser interessante devido suas atitudes e força em ação. Imperator Furiosa é, no fundo, a grande protagonista do longa. Forte e imponente, é quem dita o ritmo da história e tem suas motivações mais bem construídas e trabalhadas. Nox (Nicholas Hoult) é o único personagem que tem um desenvolvimento na obra, embora não aprofundado. O vilão Immortal Joe é visualmente muito ameaçador, embora seu papel no filme se resuma a caçar Furiosa e nada mais, ele parece estar no piloto automático durante a projeção. Poderia ser melhor. Há ainda as mulheres que acompanham Furiosa e que também acabam mostrando-se fortes e determinadas, revelando no filme uma preocupação em exaltar a força das mulheres. Decisão muito acertada, principalmente num gênero amplamente dominado por homens.

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Mad Max: Estrada da Fúria também tem algumas ambições temáticas. Há ali uma ideia de redenção, representada pela Furiosa, e também uma suave crítica à idolatria e um convite à revolução e busca por liberdade. Sobrevivência é outro tema recorrente no filme e o primeiro a ser citado. Infelizmente, esses temas ganham pouquíssimo destaque. Outro ponto já tocado, mas muito mais óbvio na projeção é a valorização da figura feminina como guerreira e, principalmente, como líder, evidenciado da forma mais prática possível. Existem notáveis referências aos antigos longas da franquia e os fãs mais fervorosos devem perceber e se deleitarem com mais esse aperitivo do filme.

Ainda que apresente alguns problemas, como um exagero demasiado em momentos pontuais, um vilão pouco interessante e um final muito previsível. Estrada da Fúria é carregado de energia, de intensidade e de insanidade, e por isso proporciona ao espectador um deslumbre sensorial incrível. Com certeza, suas cenas de tirar o fôlego (literalmente!) estarão guardadas na mente dos cinéfilos como boas recordações deste ótimo longa.

Review – Pixels, um filme propositalmente imbecil?

Uma péssima homenagem de Adam Sandler aos clássicos jogos eletrônicos.

filme-pixelsFicha Técnica:

Pixels

Direção: Chris Columbus

Produção: Chris Columbus, Adam Sandler, Allen Covert e Mark Radcliffe

Roteiro: Tim Herlihy e Timothy Dowling

Gênero: Comédia, Ação, Ficção Científica

Distribuição: Columbia Pictures

Elenco: Adam Sandler, Michelle Monaghan, Josh Gad, Peter Dinklage, Kevin James, Ashley Benson, Jane Krakowski, Brian Cox e Denis Akiyama

Lançamento: 2015

Lançado em junho de 2015, Pixels é um filme estrelado e produzido por Adam Sandler com direção de Chris Columbus, com têm origens e inspirações no curta-metragem homônimo do francês Patrick Jean (2010). O longa poderia ser uma espécie de homenagem aos clássicos jogos eletrônicos, como Donkey Kong, Pac-Man e Asteroids, e até mesmo, de certa forma, aos anos 80. Infelizmente, ele não faz isso e sequer consegue ser um filme com o mínimo de enredo ou sentido.

A premissa de Pixels é que alienígenas interpretaram que a Terra enviara a eles um convite de guerra ao transmitir um arquivo em vídeo com imagens dos clássicos jogos eletrônicos. A partir daí uma guerra interplanetária se instala, onde os extra terrestres atacarão o planeta com materializações de energia luminosa dos clássicos personagens dos jogos, colocando a Terra em sérios perigos. Cabe a Sam Brenner (Adam Sandler), antigo campeão de vídeo-games nos anos 80, e outros jogadores veteranos combaterem a ameaça e salvar o mundo.

O longa é visualmente um show de luzes e efeitos que não contribuem em nada para a sua narrativa, visto que nos supostos momentos de tensão, onde a Terra deveria estar ameaçada, tudo que vemos são seres brilhantes que não apresentam ameaça nenhuma. O diretor não consegue contornar esse problema, aliás, ele parece querer seguir o caminho contrário e transforma as supostas ameaças em seres bobos e infantis (vide a cena em que a centopeia vai dançar junto com uma senhora), numa tentativa podre, e totalmente anticlimática, de efeito cômico. Aliás, não se vê nada de impactante na fotografia ou nos efeitos visuais empregados no longa. O único destaque é a trilha sonora que conta com músicas como “We Will Rock You” e uma divertida “Game On”, esta última feita para o filme.

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Em Pixels temos, assim como na maioria dos filmes de Adam Sandler, uma gama de personagens rasos, imbecis e toscos, que tentam ser engraçados em situações óbvias, forçadas e, diversas vezes, incoerentes. O protagonista da película, Sam Brenner, era um garoto inteligente, campeão de vídeo-game, e um fracasso profissional que volta a glória como salvador da Terra no fim do filme. Jogado em situações imbecis, desenvolve também uma relação forçada e sem química com a tenente-coronel Violet Von Patten. Esta por sua vez é a segunda personagem mais incoerente da trama, mostra-se frágil no início do filme ao chorar e beber pela traição do marido, e depois se revela uma mulher de cargo alto na força de segurança da Casa Branca. Não tem função nenhuma no filme, a não ser se tornar o par do protagonista no final.

Indo além do casal principal, temos o mais incoerente personagem de Pixels, o deplorável Will Coper (Kevin James), amigo de infância de Sam. Mostrava-se não muito inteligente, mas inexplicavelmente torna-se o presidente da república e, quando você pensa que ele deve ter mudado e se tornado um cara sério, demonstra-se o mais imbecil de todos os personagens da trama (Fala sério, como aquele cara virou presidente?). Ainda temos Eddie Plant (Peter Dinklage) que é o mais coerente dentre todos, e o único que não é revoltante em cena. Além de Ludlow Lamonsoff (Josh Gad), que também é um personagem irritante, inconsequente, maluco e tosco, mas que pelo menos não é incoerente.

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O desenvolvimento de Pixels é idiota, aliás, é tão imbecil que me recuso a acreditar que não foi intencional. Seja como for, o resultado foi horrível e tivemos um roteiro fraquíssimo, cheio de incoerências, absurdos, deus ex-machina, sem a mínima construção de mundo, originalidade e capacidade de entretenimento. A começar pela ameaça alienígena, onde temos um motivo jogado, sem a mínima exploração ou explicação e que, ou você apela para uma forte suspensão de descrença e aceita ou sequer supera 20 minutos de projeção. O humor e os diálogos de Pixels são os mesmos dos outros filmes de Adam Sandler, revelando uma pobreza inquestionável no longa. Os únicos momentos de risadas proporcionados não são pelas situações que o roteiro trabalha, mas pela imbecilidade de um ator ou um roteirista em atuar ou escrever, respectivamente, uma dada cena.

Pixels não têm ambições temáticas, a película tem 108 minutos de pura idiotice e palhaçada. Talvez ele devesse ser uma homenagem aos nerds, geeks ou gamers, mas falha miseravelmente até nesse ponto. Primeiramente, num filme de 2015, tentar cativar uma geração da década de 1980 já é por si só um tiro contra o próprio pé, quando se coloca personagens como o de Josh Gad e trás resoluções para ele como a que foi feita (aquilo não foi um deus ex-machina, foi um deus sex-machina!) temos a figura do nerd/gamer/geek ridicularizada ao extremo. Aliás, há falhas pontuais e infantis também na dinâmica das batalhas contra as criaturas, como quando o Pac-Man corre atrás de Sam, e ele, de marcha ré, e que deveria estar muito mais lento, consegue os improváveis 10 segundos.

Em suma, Pixels falha miseravelmente como filme, como homenagem aos clássicos jogos eletrônicos e como entretenimento. Entra para o vasto grupo das patéticas, toscas e banais obras de Adam Sandler. Infelizmente, não há nada de relevante para se aproveitar assistindo esse filme.

Review – Fúria de Titãs 2, uma tentativa de melhora decepcionante

Não tenhamos ciúmes de nossos irmãos!

Wrath-of-the-TitansFicha Técnica:

Fúria de Titãs 2 (Wrath of the Titans)

Direção: Jonathan Liebesman

Produção: Basil Iwanyk e Polly Cohen Johnsen

Roteiro: Dan Mazeau, David Leslie Johnson e Steven Knight

Gênero: Ação, Aventura, Fantasia

Distribuição: Warner Bros. Pictures

Elenco: Sam Worthington, Liam Neeson, Ralph Fiennes, Edgar Ramírez, Danny Huston, Bill Nighy, Rosamund Pike e John Bell

Lançamento: 2012

 

Fúria de Titãs 2 é a continuação, e também uma clara tentativa de melhora, do fraco Fúria de Titãs. Infelizmente a tentativa passou longe de ser um sucesso e o pior, para os diretores, é que também foi um fracasso de bilheteria. Ambientado 10 anos após Perseu matar o Kraken, Fúria de Titãs 2 tem seu plot centrado na traição de Ares, aliado a Hades que se juntam para libertar Cronos do Tártaro, espalhando destruição pelo mundo.

O longa apresenta grandes efeitos visuais e, cenas como Perseu voando em Pégaso e Cronos causando destruição pelo simples balançar de seus braços, são dignas de nota. As lutas, no entanto, são menos enérgicas e mais confusas que no primeiro filme, como vemos nas batalhas contra a quimera e contra os ciclopes. Os cenários do filme são menos ricos que o primeiro, mas não comprometem. A variação de ângulos e a edição as vezes deixam algumas cenas confusas. A trilha sonora, a maquiagem e os figurinos não se destacam, mas também não comprometem.

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Perseu melhorou consideravelmente nesse filme, a paternidade parece ter feito bem ao protagonista, pois agora ele tem alguém muito importante para proteger. O filho de Zeus ainda é um personagem raso, mas pelo menos não é incoerente, além de demonstrar um estreitamento de seus laços com o pai e mostrar-se mais convicto de suas ações e motivações. Io foi completamente removida da história, o filme não explica como ela morreu e nem faz questão (o que é estranho visto o que aconteceu com ela no primeiro filme). A tentativa foi válida, mas seu efeito final não foi tão bom quanto poderia ser. Andrômeda se tornou uma rainha, mas também uma guerreira (e agora é loira!), lutando ao lado de Perseu, e (não) desenvolvendo uma relação amorosa com o mesmo.

Zeus é fraco, literalmente, durante o filme. Como pode o grande Deus do Olimpo ser facilmente derrubado por Hades e Ares? Uma piada. Hades apresenta o mesmo clichê do filme anterior como motivação, ódio a Zeus por ter sido designado o guardião do submundo, e consegue ser pior nesse filme que no anterior. Ares é um vilão vazio, motivado por um banal ciúme de Perseu e Zeus. Agenor, filho mortal de Poseidon, deveria ser importante na luta de Perseu, mas acaba com alívio cômico (e que pouco funciona) e mais nada. Poseidon e Hefesto também estão no filme, mas são praticamente nulos na história.

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O desenvolvimento da trama de Fúria de Titãs 2 é banal. As motivações que levam Hades e Ares a libertarem Cronos são ridículas, desmotivando o espectador logo de cara. Os plots do filme não são desenvolvidos, as relações entre Perseu e seu filho ou entre ele e Zeus são rasos, e inexiste entre ele e Andrômeda. O filme mostra certas incoerências, como um Hades que amargura contra Zeus por incontáveis anos, mudar de opinião durante o filme, obviamente depois de fazer a cagada toda, por causa de um papinho mixuruca do Zeus. Simplesmente terrível!

Ares é outro desastre do filme, nitidamente o principal vilão, ele pelo menos demonstra força, mas sua motivação é uma das mais risórias que já vi. Ciúmes de um irmão por um relacionamento que o mesmo jamais construiu com o pai. Ares é o Deus da guerra, mas sua cabeça parece a de uma criança de seis anos! Segurem-se para não rir diante da tela. Em certos momentos do filme, alguns deuses morrem, mas não fica claro o porquê, já que teoricamente eles são imortais. Não se percebe um bom planejamento, o final é sem graça e, obviamente forçado, com um invulnerável Pégaso penetrando dentro do corpo de Cronos, permitindo a Perseu golpeá-lo mortalmente.

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Tematicamente o enredo de Fúria de Titãs 2 também não apresenta nenhuma ambição. Assim como seu antecessor, é apenas mais uma história com personagens da mitologia grega, e só. A sequência até tenta fazer melhorias em relação ao anterior, e em alguns (poucos) pontos consegue. Infelizmente o resultado final é muito semelhante ao anterior, o que coloca esse filme na categoria de mais um dos esquecíveis e descartáveis longas do cinema.

Review – Fúria de Titãs, a personificação da falta de desenvolvimento narrativo

Não dava para esperar muito de um diretor que é fã de Cavaleiros do Zodíaco, né?

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Ficha Técnica:

Fúria de Titãs (Clash of the Titans)

Direção: Louis Leterrier

Produção: Basil Iwanyk, Kevin De La Noy e Richard D. Zanuck

Roteiro: Travis Beacham e Phil Hay

Gênero: Ação, Aventura, Fantasia

Distribuição: Warner Bros. Pictures

Elenco: Sam Worthington, Liam Neeson, Ralph Fiennes, Gemma Arterton, Mads Mikkelsen, Alexa Davalos e Danny Huston

Lançamento: 2010

O diretor de Fúria de Titãs, Louis Leterrier, declarou-se fã de Cavaleiros do Zodíaco e disse que este Fúria de Titãs era também uma homenagem ao mangá de Masami Kurumada. Bem, por aí já podíamos imaginar que não teríamos um grande trabalho… E realmente não foi. Baseado na mitologia grega, Fúria de Titãs conta a história de Perseu (sim, o semideus irmão de Hércules e famoso por decapitar a Medusa), porém com grandes diferenças em relação ao mito original. Mergulhado no riquíssimo universo da mitologia grega, Fúria de Titãs não consegue desenvolver nenhum de seus temas e plots, culminando num trabalho vazio e pouco produtivo.

Em termos mais técnicos, Fúria de Titãs não é ruim (embora não seja brilhante), conseguindo ser eficaz com seus muitos efeitos especiais. As cenas de ação, embora não sejam bem desenvolvidas narrativamente falando, pelo menos conseguem ser minimamente divertidas. O design de produção, o figurino, a fotografia, os cenários e a trilha sonora não comprometem, o que já é um alívio. Há algumas cenas em slow motion que não acrescentam em nada, mas não chegam a atrapalhar também.

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Os personagens de Fúria de Titãs são sofríveis, a começar pelo seu protagonista. Perseu não tem nenhum desenvolvimento durante o longa, mostrando-se um personagem raso, sem carisma, com um background vazio e incapaz de conduzir a atenção do espectador. Suas ações são motivadas pela vingança contra Hades e só. Sua resolução e desenvolvimentos amorosos são péssimos e a atuação de Sam Worthington também não consegue salvar o personagem. Andrômeda e Io são as duas mocinhas do filme (isso mesmo, duas!) e obviamente nenhuma das duas funciona. Aliás, a primeira não parece ter significado nenhum para existir no filme, pois sequer nos importamos com ela, já que não desenvolve nada com o protagonista (e o pior é que ela o convida para ser seu rei no final!). Já com a segunda, até há um pequeno desenvolvimento, mas superficial e forçado o suficiente para que o espectador comemore a “morte” dela. Hades e Zeus parecem agir como robôs no filme, mais mecânicos impossível, e obviamente, não há nenhum desenvolvimento na relação entre eles. Os outros personagens também não tem nenhum desenvolvimento, sendo totalmente esquecíveis (alguém lembra o nome de algum deles pelo menos?).

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Os personagens de Fúria de Titãs são um ponto fraquíssimo do longa, mas é no roteiro que temos as maiores decepções. Para começar, não existe uma construção de mundo, os roteiristas parecem pressupor que o espectador já deva conhecer a mitologia grega. Não há um desenvolvimento de história, as transições para os desafios que Perseu deve enfrentar acontecem de maneira abrupta, não há uma conexão clara entre as situações expostas, não há originalidade, propósito ou empolgação com praticamente nenhuma sequência. Os plots apresentados, como por exemplo, os deuses se alimentarem das orações humanas e a insubmissão dos humanos, não são bem desenvolvidos. No final temos a impressão de que os personagens estão simplesmente sendo jogados de um lado para o outro porque sim, é necessário ao roteiro. Aliás, uma das partes em que essa imbecil inconsistência narrativa fica mais evidente é quando Zeus (o viril Deus do Olimpo) traz de volta Io, que deveria estar morta, para ser a companheira de Perseu, simplesmente porque ele (como filho do garanhão do Olimpo) não podia ficar sozinho.

Clash of the Titans

O filme até consegue ter boas sequências de ação, e transita bem, em alguns momentos, na mitologia grega, mas é muito pouco! Tematicamente o filme não tem nada a dizer, não traz nenhuma mensagem relevante e não consegue gerar nenhuma empatia no espectador. Perseu é irritante e incoerente ao afirmar, por diversas vezes durante a projeção, querer vencer como humano e não aceitar os presentes divinos, sendo que no final (e contraditoriamente depois que seus companheiros morreram) ele resolve aceitar os itens mágicos (afinal de onde veio aquela espada?) e lutar como um semideus. O fim da película é podre, com um superestimado Kraken (dito no filme bem mais assustador do que provou ser) sendo derrotado estranhamente e facilmente pelo olhar da Medusa, direcionado por Perseu.

Com pouco mais de uma hora e meia de duração, Fúria de Titãs pode agradar a quem goste de uma ação pura e com bons efeitos especiais, mas é preciso ter uma grande suspensão de descrença e que o espectador não exija mais nada do longa. Como já dito, narrativamente fraco, incoerente e vazio, essa homenagem a Cavaleiros do Zodíaco é tão ruim quanto a própria obra de Masami Kurumada.