Review – O Regresso e a luta substancial pela vida

Enquanto houver esperança, lute, sobreviva, viva!

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Ficha Técnica:

O Regresso (The Revenent)

Direção: Alejandro G. Iñárritu

Produção: Arnon Milchan, Steve Golin, David Kanter, Alejandro G. Iñárritu, Mary Parent, James W. Skotchdopole e Keith Redmon

Roteiro: Mark L. Smith e Alejandro G. Iñárritu

Gênero: Drama

Distribuição: 20th Century Fox

Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson, Will Poulter e Forrest Goodluck

Lançamento: 2015

Lançado nos Estados Unidos em dezembro de 2015, O Regresso é um filme de drama dirigido por Alejandro González Iñárritu, baseado no romance homônimo de Michael Punke, cuja história se inspira na fantástica aventura vivida por Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), um explorador e caçador de peles que em 1823 fora atacado por um urso e, abandonado a mercê por seus companheiros de expedição, rastejou por mais de 300 km de onde fora deixado para o acampamento de onde viera.

Por si só, este O Regresso é a adaptação da adaptação, contendo licenças e mudanças consideráveis em relação à obra original e, muito provavelmente, aos fatos ocorridos de verdade com Glass. A primeira, e maior, nota a si considerar é que, diferente da obra original, o personagem vivido por DiCaprio não rasteja até seu destino, tal como na história. Indo além desse detalhe, outros pontos primordiais são alterados como o fato do filho de Glass acompanhá-lo durante a expedição, diferentemente da original, onde o mesmo acabara de nascer e estava em casa com a mãe. Retornarei na questão do roteiro posteriormente.

O Regresso é, tecnicamente, um deslumbre visual. A fotografia do filme é espetacular e as gravações utilizando luz natural não comprometem, muito pelo contrário, trazem uma imersão que, aliada aos planos abertos empregados, proporcionam uma imersão bastante eficiente. Os cenários são sensacionais e a variação de ângulos é eficiente em contrastar a imponência da natureza perante a pequenez (literalmente, em algumas cenas) do homem. Há um equilíbrio bom em alternar planos gerais, mostrando os cenários e o ambiente, e planos fechados, com closes que captam a expressividade visceral dos personagens, um elemento narrativo crucial do filme. A batalha inicial do filme é um convite ao espetáculo visual a que seremos submergidos, visto que é dirigida com uma sequência fluida e sem cortes, expondo a ferocidade da batalha de uma forma bem eficiente. A trilha sonora, a maquiagem e os efeitos especiais são utilizados de maneira exemplar e algumas cenas, como a batalha de Glass contra a Ursa, a caracterização de seus ferimentos ou mesmo a cena nas entranhas de um cavalo, são dignas de nota.

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Os personagens são pilares importantes na obra. Hugh Glass é sustentado e desenvolvido por uma atuação fenomenal de Leonardo DiCaprio. Ele sustenta e carrega a história e é carregado de expressividades e dramaticidades que, num papel praticamente sem falas, beira o absurdo. Contudo, o personagem é preenchido com motivações que vão além do instinto de sobrevivência e do valor insuperável da vida, carregando o peso dramático também para desejos vingativos e, de forma desnecessária, limitando a maior mensagem da obra. Interpretado de maneira notável por Tom Hardy, John Fitzgerald é um personagem frio, racional, ganancioso e cruel que, embora condenável, justifica suas ações pelo seu passado e por suas claras e expressivas inquietude e insanidade (repare como o olhar de Hardy demonstra exatamente estes sentimentos). Ele também é uma exemplificação clara e importante do egoísmo humano. Domhnall Gleeson interpreta o capitão Henry, que embora não comprometa, também tem pouca imposição em cena, revelando atitudes práticas, cômodas e covardes, como deixar seu tripulante com o cara que mais o odeia em seu momento de maior fragilidade. Will Poulter interpreta Jim Bridger e é útil ao mostrar o homem em um dilema ético e moral enquanto é completamente subjugado pelo medo. Cumpre seu papel de forma eficiente. Já Hawk, interpretado por Forrest Goodluck, é o personagem mais descartável do filme, não pelo desempenho do ator, mas pelo fato de ele ser o desencadeador de motivações extras desnecessárias ao personagem de Hugh Glass.

Voltando ao roteiro, O Rogresso é construído a partir de alguns subplots: a luta substancial de Hugh Glass para manter-se vivo, a busca por vingança do mesmo, a jornada gananciosa de Fitzgerald, a volta do grupo do capitão Henry e a procura dos índios Arikaras pela filha sequestrada do chefe da aldeia. A grande questão é: precisava fragmentar tanto a história? É até compreensível que os roteiristas tentaram criar arcos e motivações para os personagens e os diversos núcleos da história, porém a grande sensação transposta é a falta de foco num enredo que deveria sem muito mais simples, tocante e poético do que acabou se provando. A luta de Glass pela vida, as diversas peripécias que acaba tendo de enfrentar e o impacto que elas causam estão lá, e são muito eficientes em mostrar o valor da vida e o imenso extinto de sobrevivência humano. O problema é que poderia ser muito mais poético e eficiente se não fosse fragmentado por flashbacks e delírios do personagem que em nada acrescentam a trama. A decisão de adicionar um arco de vingança também limita bastante àquela que deveria ser a mensagem do filme: “sobreviver porque o valor da vida é absoluto”. Não é incoerente, mas revela decisões e desenvolvimento não tão eficazes no resultado final e, totalizam um filme demasiadamente longo para o que realmente era necessário ser contado.

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Aprofundando nas temáticas de O Regresso, temos uma retratação muito boa da natureza humana, principalmente quando se trata de lutar contra o medo, enfrentar dilemas éticos e morais e provar o extinto de sobrevivência, todos apresentados em situações extremas, contribuindo para uma explanação intensa, cru e altamente realista desses comportamentos. O grande ponto falho fica por conta dessa introdução desnecessária de vingança e redenção, algo que contribui de forma negativa para a transmissão da mensagem principal do longa, infelizmente. Há também os sonhos e delírios de Glass, algo como se fosse questionar a linha tênue entre a vida e morte, entre viver no limite e se entregar a morte, pontos interessantes que nunca são trabalhados e se tornam apenas detalhes completamente deslocados no filme.

A qualidade de O Regresso é inquestionável, não somente no âmbito técnico como no trabalho de seus personagens principais e de suas ambições temáticas, extremamente relevantes na sociedade contemporânea. A obra é visceral e realista e consegue ser enfática e marcante em muitas de suas passagens. Pode-se questionar os pontos acimas citados e algumas adições não muito bem acertadas no roteiro, mas a verdade é que quando acerta, o filme é magnífico e isso também precisa ser levado em conta. Aliás, o valor absoluto da vida humana é sempre uma mensagem que merece ser vista, compreendida e repassada com toda a seriedade e eficácia possível.

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Sobre Thiago

Um grão de areia no olho do furacão.

Publicado em 17 de maio de 2016, em Review e marcado como , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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