Review – Divertida Mente: uma explosão de criatividade

Um dos trabalhos mais ambiciosos e complexos da Pixar.

inside out

Ficha Técnica:

Divertida Mente (Inside Out)

Direção: Pete Docter

Produção: Jonas Rivera

Roteiro: Meg LeFauve, Josh Cooley, Pete Docter

Gênero: Animação, Comédia, Aventura

Distribuição: Walt Disney Pictures

Elenco: Amy Poehler, Phyllis Smith, Lewis Black, Bill Hader, Kaitlyn Dias, Mindy Kaling

Lançamento: 2015

Após seis anos sem lançar um trabalho original de grande impacto, a Pixar retornou com Divertida Mente, um triunfo brilhante. Lançado em junho de 2015 e dirigido por Pete Docter (o mesmo diretor de Monstros S.A. e Up!), esse é um dos trabalhos mais imaginativos, ousados e complexos já feitos pelo estúdio. A ideia básica é expor, através de “materialização”, as abstratas emoções que norteiam nosso pensamento, um argumento não exatamente original, mas magnificamente criativo em sua execução.

O filme tem início com Riley, uma garotinha, que logo após seu nascimento tem sua consciência criada e personificada através de emoções básicas do ser humano: Alegria, Tristeza, Medo, Nojo e Raiva. A seguir vemos uma sequência expositiva, na qual rapidamente somos integrados ao sistema regido por essas emoções e como elas afetam as reações de Riley, transformam-se em memórias e por consequência, servem de base para construir sua personalidade e seu caráter. Assim, temos um prólogo extremamente eficiente em apresentar a dinâmica do imaginativo subconsciente da protagonista, como também a ver crescer sobre tais momentos.

InsideOut

O trabalho de design é novamente deslumbrante, tal como de praxe da Pixar. O character design das emoções é simples e eficiente e o trabalho de cores para distinguir e dar unicidade a cada uma delas contribui para a narrativa de forma simples, simbólica e objetiva. Um ponto que deixa um pouco a desejar é a expressividade das personagens, muito aquém de obras como WALL-E. Contudo, a criatividade em construir os mais variados cenários dentro da mente de Riley é imensa, e melhor ainda que eles contribuam para a narrativa e a exploração de sua própria personalidade. È notável que Alegria (a emoção protagonista do longa) esteja sempre brilhante, enquanto as outras apenas se diferem por cor, numa tentativa de mostrá-la, a princípio como a única emoção positiva dentre as cinco primordiais. Este conceito é genialmente quebrado posteriormente. Um ponto falho é a trilha sonora, completamente esquecível, diferentemente do que a Pixar costuma apresentar.

Divertida Mente é uma história sobre a mente humana. Mais do que isso, sobre a mente de uma garota aos 11 anos, entrando na pré-adolescência, que passa por uma mudança traumática em sua vida. É notável como o filme constrói a Riley, até o ponto de virada, como uma menina cheia de boas recordações, resultando numa criança alegre e despreocupada, tal como deve ser a vida de uma criança. Até então, Alegria dominava amplamente a “sala de comando” e Riley passava a maior parte de seu tempo feliz. Nessa nova etapa a mudança de casa (e de cidade), a nova escola e a chegada de uma idade com maiores responsabilidades, desencadeiam uma crise psicológica na personagem, estabelecendo o grande plot do filme.

Com as mudanças, Tristeza passa a ser mais ativa (de uma forma instintiva) e acaba, depois de alguns incidentes por se separar, juntamente com Alegria, da “sala de comando”. É então que vemos a trama subdivida em três faces: a aventura de Alegria e Tristeza dentro da mente de Riley para voltar à “sala de comando”; Nojinho, Raiva e Medo tentando conduzir as emoções da garota sem aquelas duas; e a própria Riley numa crise psicológica devido a seus problemas. Em sequência, há cenas brilhantes que enfocam o quão imaginativo são as ideias do filme, passando por Alegria e Tristeza no mundo dos sonhos, no imenso armazenamento de memórias profundas e no surreal imaginário infantil. Todas as ideias ali reforçam, juntamente com o conceito das “ilhas de personalidade” e das “memórias de base”, uma das grandes mensagens da obra: somos fruto de nossas vivências e das memórias que guardamos delas.

INSIDE OUT

Toda a construção e o desenvolvimento da história se completam com a própria construção da psicologia de Riley e do ser humano de uma forma geral. Alegria, a protagonista, foi feita para ser uma personagem totalmente unidimensional e assim ela o é em boa parte do filme. Aliás, a forma como ela age até certo ponto é irritante, mas ao mesmo tempo diz muito sobre como as pessoas (e a mídia) querem impor uma necessidade incessante de felicidade e/ou transparecer continuamente a mesma. Contudo, no ponto mais alto do filme, justamente o ponto onde Alegria muda de atitude, ela sente tristeza e, por uma série de fatores, entende finalmente a necessidade desse sentimento para o amadurecimento e torna-se, de uma maneira subversiva com o que ela mesmo representa, uma personagem tridimensional.

Tristeza, antes oprimida por Alegria, mas sem nunca querer prejudicar Riley, acaba por fim compreendendo seu papel e, tem em Bing Bong (amigo imaginário de Riley) aquele que, numa cena sensacional, a ajuda em sua descoberta. Nojinho, Raiva e Medo, não possuem desenvolvimento, mas funcionam muito bem em seus papéis e nas piadas que desenvolvem. Também funcionam em conjunto com Alegria e Tristeza e servem como explanações muito interessantes quando são mostrados no consciente de outras pessoas que não a Riley. Nota-se, por exemplo, que na mãe da nossa pré-adolescente é uma Tristeza quem lidera, no pai, uma Raiva, reflexos de personalidades maduras e já consolidadas.

Joy-Sadness-BingBong

Todas as construções de mundo, o visual, a narrativa e o desenvolvimento dos personagens de Divertida Mente culminam em suas complexas e, magnificamente bem trabalhadas, ideias. A mistura das cores nas memórias de base revela que somos fruto de memórias que guardamos de experiências e emoções vividas, formamos caráter e personalidade a partir disso. Mais do que isso, a tristeza é um sentimento tão importante na condição humana quanto à alegria e um crescimento pleno e saudável passa pela mistura de sensações diversas e antagônicas. O longa também é sutil em evidenciar a complexidade do amadurecimento, da formação de personalidade e caráter de uma forma multicolorida e minimalista. É notável como, à medida que Riley cresce, a mesa de controle da sala de comando torna-se cada vez maior e mais complexa, uma forma sutil e genial de mostrar a complexidade do crescer.

Divertida Mente é visualmente rico, cheio de cores e de vida, repleto de energia e piadas sutis, bem elaboradas e nunca cansativas. O roteiro é previsível, mas sua execução é uma explosão de imaginação contemplativa. Sobretudo é um trabalho que aborda temas profundos, humanos e complexos, dosando perfeitamente sutileza e ousadia numa das obras mais notáveis da Pixar. A natureza humana, a psicologia do amadurecimento e a formação da personalidade, tudo isso está em Divertida Mente, e é incrível como um filme infantil tenha a ousadia de trazer temas tão fortes e tão sérios sem perder a simplicidade e a pureza necessária para seu público.

Anúncios

Sobre Thiago

Um grão de areia no olho do furacão.

Publicado em 30 de março de 2016, em Review e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: