Review – Deadpool: anti-herói, carismático, insano…

Referências, humor ácido e quebras da quarta parede… Esse é Deadpool.

Deadpool-posterFicha Técnica:

Deadpool

Direção: Tim Miller

Produção: Simon Kinberg, Ryan Reynolds e Lauren Shuler Donner

Roteiro: Rhett Reese e Paul Wernick

Gênero: Ação, Comédia, Fantasia

Distribuição: 20th Century Fox

Elenco: Ryan Reynolds, Morena Baccarin, Ed Skrein, T. J. Miller, Gina Carano e Brianna Hildebrand

Lançamento: 2016

 

Após fracassar como Deadpool em “X-Men Origens: Wolverine” de 2009, e também como Lanterna Verde, no filme homônimo de 2011, ambos não exatamente por sua culpa, mas pelos diretores não souberem exatamente o que fazer com tais personagens, Ryan Reynolds retorna às telas para viver o falastrão mercenário da Marvel e mudar (para melhor) sua história no mundo cinematográfico dos super-heróis. Não que Deadpool seja exatamente um herói, mas vocês entenderam.

Deadpool já começa com uma apresentação subversiva, utilizando os créditos iniciais para satirizar o próprio personagem e toda a equipe de produção. O longa tem início, de fato, com Deadpool em um táxi, indo para um confronto enquanto dialoga com o taxista. Em meio à progressão do roteiro, somos interrompidos pelo protagonista que nos conta sua própria história. Basicamente é isso, temos uma linha temporal a ser seguida, mas constantemente interrompida para nos revelar o passado que o fez chegar a já conhecida situação presente. Uma fórmula muito simples e usual, mas sustentada pelo carisma e humor ácido de seu protagonista, juntamente com os artifícios da quebra da quarta parede.

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Tecnicamente, Deadpool é bastante competente. Embora tenha um orçamento baixo se comparados aos atuais filmes do gênero (algo inclusive também satirizado pelo personagem de forma bastante cômica), consegue ser eficiente na maioria de suas cenas. A variação de ângulos é muito bem utilizada em conjunto com o personagem, às vezes a câmera ajuda na quebra da quarta parede, outras, evidencia certas “partes” do uniforme (e do corpo) do protagonista, trabalhando com suas falas cheias de acidez cômicas. Há uma notável diferença de tonalidade de cores quando Wade Wilson está em cena e quando é Deadpool quem comanda a ação. No primeiro vemos cores mais frias e uma iluminação menos atraente, ao passo que no segundo vemos cores muito mais vibrantes e uma iluminação atrativa. O slow motion também contribui para a quebra da quarta parede e para a exposição do humor físico do filme, funcionando de forma muito eficiente. Somado a tudo isso, temos efeitos especiais e um trabalho de maquiagem muito bem feitos.

O maior destaque da obra é, sem dúvidas, o seu protagonista. Deadpool é hilário, sagaz, violento e irreverente. Com isso já teríamos um personagem bastante carismático, porém o filme trabalha-o de forma bem mais completa. Ao revelar o passado de Wade Wilson, vemos sua antiga vida de mercenário, contemplamos a construção de sua história de amor com Vanessa (Morena Baccarin), sua desolação com a descoberta de um câncer terminal e o surgimento de seus poderes após tantos pesares. Ryan Reynolds brilha como Wade Wilson, construindo um romance consistente e plenamente capaz de ser o estopim para as ações e resoluções futuras do personagem. Esse ótimo background, aliado a coerência da construção da personalidade do Deadpool e o desenvolvimento do mesmo, somam-se num protagonista imponente, extremamente interessante e capaz de segurar o filme sozinho. Valeu a insistência de Reynolds em trazer o personagem para um filme solo, o ator parece ter nascido para interpretar Deadpool, desde sua forma mais engraçada até a mais violenta.

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Já os outros personagens cumprem bem o seu papel. Par romântico de Wade Wilson, Vanessa é quem mais se destaca. Vital para o protagonista e para a trama, ela tem, em sua relação com Wade, um desenvolvimento visceral que culmina num amor convincente. Vale destacar a memorável cena de troca de “carinhos” entre o casal em datas de feriados. Colossus e Míssil Adolescente Megasônico (Brianna Hildebrand) aparecem de forma deslocada. Afinal, porque somente eles entre os X-Men? Deadpool subverte esse “erro” de forma genial: “Os diretores não tinham dinheiro para escalar mais atores do grupo do Professor X”. Uma piada digna de nota. Ainda assim, ambos (Colossus e Míssil Adolescente Megasônico) cumprem seu papel quando são necessários (dar mais opção de luta no último ato). Já o vilão Ajax (Ed Skrein), é cruel e forte, da maneira mais simples e direta que os quadrinhos trabalhariam. Não tem grande desenvolvimento, apenas faz acontecer. Funciona porque ele é o objetivo do Deadpool, e é este quem queremos ver.

Deadpool é um filme de diretrizes muito claras: evidenciar ao máximo a personalidade de seu protagonista. Assumindo isso, é como se todas as escolhas do roteiro e da direção fossem no intuito de contribuir para tal. A quebra da quarta parede, os diálogos, as piadas, os escolhas das cenas, das falas… Tudo está lá com esse intuito. O propósito é claro e, nesse aspecto, consegue ser engraçado e surpreendente num nível muito bom. Não só isso, a irreverência de Deadpool é um motor chave para manter o entretenimento do espectador sempre alto, o que faz do longa um filme muito divertido. Vale ressaltar que apenas Deadpool tem a consciência de ser um personagem dentro de um filme, diferente de Wade Wilson, isso contribui para contrastar o próprio caráter de suas histórias, e suas respectivas seriedades.

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Contudo, a espinha dorsal da história é de um roteiro extremamente clichê: herói conhece a garota, se apaixona por ela, um problema os impedem de serem felizes, um vilão destrói sua vida, esse vilão sequestra a mocinha, o herói vai resgatá-la ao lado de parceiros… Ainda que consiga subverter a narrativa de uma forma bem eficiente, escrachando a própria produção e os clichês do gênero, é incômodo ver que tudo isso tem base numa espinha dorsal extremamente genérica. Há, também, uma lacuna de história perdida no filme. Em certa parte, Deadpool une o flashback ao momento presente da trama, contudo não há uma referência sequer a quando o mesmo entrou em contato com o instituto Xavier, algo que já havia acontecido no momento presente. Poderíamos subentender que nesse meio tempo ele foi procurado pelos mutantes e convidado a se juntar aos mesmos, mas subentender não é o ideal nesse caso. Mais 10 minutos de projeção poderiam preencher esse espeço e tapar esse buraco do roteiro. Ainda por consequência da base genérica sobre a qual se sustenta a história, somos premiados com um final extremamente previsível. Por sorte, o carisma e o humor de Deadpool conseguem nos surpreender, salvando a previsibilidade em momentos chaves (como não lembrar da máscara sob a máscara?).

Outro ponto fortíssimo em Deadpool são as referências. Recheado delas, a obra premia aqueles capazes de pegar todas (ou quase todas), retirando sorrisos do espectador com piadas e críticas pontuais, referenciando atores, autores, diretores, quadrinhos, e tudo mais que você imaginar, quer seja do próprio Deadpool, quer seja do próprio Ryan Reynolds, quer seja do tal “Polverine”. De fato, há referências para os mais variados gostos, sentidos e ocasiões. Recomendo estarem atentos e preparados para se deliciar com elas e aproveitar ao máximo.

Deadpool não é perfeito, não é o melhor filme de super-herói e não é a obra mais original do mundo. Entretanto, ele sabe muito bem disso, e justamente por não se levar a sério e conseguir tirar onda com basicamente tudo (seja dentro ou fora da tela), se destaca como um filme ousado, surpreendente, marcante, diferente, engraçado e, sobretudo, extremamente divertido. Para os fãs dos quadrinhos, do personagem e dos filmes de super-heróis, certamente um deleite imperdível pelas notáveis referências e pelo dinamismo, desenvoltura e carisma do anti-herói frente ao espetáculo que ele sabe estar protagonizando.

Nota: Há uma cena pós-crédito imperdível.

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Sobre Thiago

Um grão de areia no olho do furacão.

Publicado em 12 de março de 2016, em Review e marcado como , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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