Arquivo mensal: março 2016

Review – Divertida Mente: uma explosão de criatividade

Um dos trabalhos mais ambiciosos e complexos da Pixar.

inside out

Ficha Técnica:

Divertida Mente (Inside Out)

Direção: Pete Docter

Produção: Jonas Rivera

Roteiro: Meg LeFauve, Josh Cooley, Pete Docter

Gênero: Animação, Comédia, Aventura

Distribuição: Walt Disney Pictures

Elenco: Amy Poehler, Phyllis Smith, Lewis Black, Bill Hader, Kaitlyn Dias, Mindy Kaling

Lançamento: 2015

Após seis anos sem lançar um trabalho original de grande impacto, a Pixar retornou com Divertida Mente, um triunfo brilhante. Lançado em junho de 2015 e dirigido por Pete Docter (o mesmo diretor de Monstros S.A. e Up!), esse é um dos trabalhos mais imaginativos, ousados e complexos já feitos pelo estúdio. A ideia básica é expor, através de “materialização”, as abstratas emoções que norteiam nosso pensamento, um argumento não exatamente original, mas magnificamente criativo em sua execução.

O filme tem início com Riley, uma garotinha, que logo após seu nascimento tem sua consciência criada e personificada através de emoções básicas do ser humano: Alegria, Tristeza, Medo, Nojo e Raiva. A seguir vemos uma sequência expositiva, na qual rapidamente somos integrados ao sistema regido por essas emoções e como elas afetam as reações de Riley, transformam-se em memórias e por consequência, servem de base para construir sua personalidade e seu caráter. Assim, temos um prólogo extremamente eficiente em apresentar a dinâmica do imaginativo subconsciente da protagonista, como também a ver crescer sobre tais momentos.

InsideOut

O trabalho de design é novamente deslumbrante, tal como de praxe da Pixar. O character design das emoções é simples e eficiente e o trabalho de cores para distinguir e dar unicidade a cada uma delas contribui para a narrativa de forma simples, simbólica e objetiva. Um ponto que deixa um pouco a desejar é a expressividade das personagens, muito aquém de obras como WALL-E. Contudo, a criatividade em construir os mais variados cenários dentro da mente de Riley é imensa, e melhor ainda que eles contribuam para a narrativa e a exploração de sua própria personalidade. È notável que Alegria (a emoção protagonista do longa) esteja sempre brilhante, enquanto as outras apenas se diferem por cor, numa tentativa de mostrá-la, a princípio como a única emoção positiva dentre as cinco primordiais. Este conceito é genialmente quebrado posteriormente. Um ponto falho é a trilha sonora, completamente esquecível, diferentemente do que a Pixar costuma apresentar.

Divertida Mente é uma história sobre a mente humana. Mais do que isso, sobre a mente de uma garota aos 11 anos, entrando na pré-adolescência, que passa por uma mudança traumática em sua vida. É notável como o filme constrói a Riley, até o ponto de virada, como uma menina cheia de boas recordações, resultando numa criança alegre e despreocupada, tal como deve ser a vida de uma criança. Até então, Alegria dominava amplamente a “sala de comando” e Riley passava a maior parte de seu tempo feliz. Nessa nova etapa a mudança de casa (e de cidade), a nova escola e a chegada de uma idade com maiores responsabilidades, desencadeiam uma crise psicológica na personagem, estabelecendo o grande plot do filme.

Com as mudanças, Tristeza passa a ser mais ativa (de uma forma instintiva) e acaba, depois de alguns incidentes por se separar, juntamente com Alegria, da “sala de comando”. É então que vemos a trama subdivida em três faces: a aventura de Alegria e Tristeza dentro da mente de Riley para voltar à “sala de comando”; Nojinho, Raiva e Medo tentando conduzir as emoções da garota sem aquelas duas; e a própria Riley numa crise psicológica devido a seus problemas. Em sequência, há cenas brilhantes que enfocam o quão imaginativo são as ideias do filme, passando por Alegria e Tristeza no mundo dos sonhos, no imenso armazenamento de memórias profundas e no surreal imaginário infantil. Todas as ideias ali reforçam, juntamente com o conceito das “ilhas de personalidade” e das “memórias de base”, uma das grandes mensagens da obra: somos fruto de nossas vivências e das memórias que guardamos delas.

INSIDE OUT

Toda a construção e o desenvolvimento da história se completam com a própria construção da psicologia de Riley e do ser humano de uma forma geral. Alegria, a protagonista, foi feita para ser uma personagem totalmente unidimensional e assim ela o é em boa parte do filme. Aliás, a forma como ela age até certo ponto é irritante, mas ao mesmo tempo diz muito sobre como as pessoas (e a mídia) querem impor uma necessidade incessante de felicidade e/ou transparecer continuamente a mesma. Contudo, no ponto mais alto do filme, justamente o ponto onde Alegria muda de atitude, ela sente tristeza e, por uma série de fatores, entende finalmente a necessidade desse sentimento para o amadurecimento e torna-se, de uma maneira subversiva com o que ela mesmo representa, uma personagem tridimensional.

Tristeza, antes oprimida por Alegria, mas sem nunca querer prejudicar Riley, acaba por fim compreendendo seu papel e, tem em Bing Bong (amigo imaginário de Riley) aquele que, numa cena sensacional, a ajuda em sua descoberta. Nojinho, Raiva e Medo, não possuem desenvolvimento, mas funcionam muito bem em seus papéis e nas piadas que desenvolvem. Também funcionam em conjunto com Alegria e Tristeza e servem como explanações muito interessantes quando são mostrados no consciente de outras pessoas que não a Riley. Nota-se, por exemplo, que na mãe da nossa pré-adolescente é uma Tristeza quem lidera, no pai, uma Raiva, reflexos de personalidades maduras e já consolidadas.

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Todas as construções de mundo, o visual, a narrativa e o desenvolvimento dos personagens de Divertida Mente culminam em suas complexas e, magnificamente bem trabalhadas, ideias. A mistura das cores nas memórias de base revela que somos fruto de memórias que guardamos de experiências e emoções vividas, formamos caráter e personalidade a partir disso. Mais do que isso, a tristeza é um sentimento tão importante na condição humana quanto à alegria e um crescimento pleno e saudável passa pela mistura de sensações diversas e antagônicas. O longa também é sutil em evidenciar a complexidade do amadurecimento, da formação de personalidade e caráter de uma forma multicolorida e minimalista. É notável como, à medida que Riley cresce, a mesa de controle da sala de comando torna-se cada vez maior e mais complexa, uma forma sutil e genial de mostrar a complexidade do crescer.

Divertida Mente é visualmente rico, cheio de cores e de vida, repleto de energia e piadas sutis, bem elaboradas e nunca cansativas. O roteiro é previsível, mas sua execução é uma explosão de imaginação contemplativa. Sobretudo é um trabalho que aborda temas profundos, humanos e complexos, dosando perfeitamente sutileza e ousadia numa das obras mais notáveis da Pixar. A natureza humana, a psicologia do amadurecimento e a formação da personalidade, tudo isso está em Divertida Mente, e é incrível como um filme infantil tenha a ousadia de trazer temas tão fortes e tão sérios sem perder a simplicidade e a pureza necessária para seu público.

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Top X – Os 5 Melhores Técnicos do Mundo

Esta é a seção Top X, onde elaboramos um Top que pode ser sobre os mais diversos assuntos. A letra X no título é propositalmente uma incógnita, pois poderemos fazer um Top com qualquer valor.

O que é preciso para ser um bom treinador? Podemos pensar em conhecimento tático, criatividade e inovação em modelos de jogo, saber garimpar no mercado as melhores peças, utilizar bem as categorias de base e os jovens jogadores, ter o grupo na mão, conseguir tirar o melhor de cada jogador, administrar o elenco, fazer o time jogar coletivamente ou montar um sistema de jogo que favoreça ao craque decidir as partidas. São algumas das características que bons treinadores devem possuir, mas encontra-las juntas em um único técnico é praticamente impossível. Cada um tem seu estilo e, independentemente de qual seja, cada um pode funcionar de sua maneira. Diante de tudo isso, montar uma lista com os melhores técnicos do mundo é algo muito difícil, por isso montamos nossa lista pensando em tudo isso já citado, sem esquecer o currículo de cada um e o quão notável já foram seus feitos. Enfim, segue a nossa lista com os 5 melhores treinadores da atualidade.

5 – Luis Enrique

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Luis Enrique chegou ao Barcelona após bons trabalhos na Roma e no Celta de Vigo, ainda que não tivesse nenhum título como treinador até então. Com um passado vitorioso como jogador do Barcelona, o técnico tinha o maior desafio de sua carreira: reconduzir o Barcelona ao topo do mundo. E ele conseguiu. Em sua primeira temporada conquistou o triplete (venceu a Copa do Rei, o Campeonato Espanhol e a UEFA Champions League), feito até então alcançado apenas por Pep Guardiola. Já na atual temporada conquistou a Supercopa da UEFA e o Mundial de Clubes da FIFA, lidera a Liga BBVA e está nas oitavas da Champions League. Caminha a passos largos para repetir o triplete e quebrar cada vez mais recordes. Alguns podem questionar sua capacidade como treinador, visto que ele tem algumas das melhores peças possíveis para a montagem de seu time, e com tais peças as coisas fluem mais facilmente. De fato, mas usando uma explicação já clichê (e totalmente coerente!) no mundo futebolístico: não são grandes estrelas que formam um supertime, e sim um excelente time que forma grandes estrelas. Luis Enrique conseguiu isso no Barcelona, e o desempenho e os números de sua equipe já são superiores aos do histórico Barça de Pep Guardiola.

4 – Carlo Ancelotti

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Carlo Ancelotti é um dos técnicos mais prestigiados da atualidade. Três vezes campeão da UEFA Champions League, campeão da Premier League, campeão da Ligue 1, bi campeão Mundial de Clubes da FIFA, além de diversos outros troféus, fazem dele um dos treinadores mais vitoriosos do mundo. É ídolo da torcida do Milan com duas conquistas de Champions League, além de conquistar La Décima para o Real Madrid, o que o deixou na história dos maiores vencedores da principal competição de clubes do mundo. Ancelotti é praticamente completo: alia grande conhecimento tático, criatividade e inovação em modelos de jogo, tem o grupo na mão e sabe como administrar o elenco, consegue tirar o melhor de cada jogador, fazer o time jogar coletivamente e desenhar o jogo de forma que favoreça ao craque decidir as partidas. Deu um nó tático inesquecível em Pep Guardiola, quando o Real Madrid venceu o Bayern de Munique por 4 x 0 em plena Allianz Arena, na semifinal da Champions League de 2014. Por sua incrível carreira e pelos feitos grandiosos, Ancelotti é o quarto colocado.

3 – Jurgen Klopp

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Jurgen Klopp é idolatrado pela torcida do Borussia Dotmund, não por menos, e o segundo técnico mais vitorioso da história do clube. Mas o mais curioso é que Klopp já é amado também pela torcida do Liverpool. Estranho, não? Afinal ele só tem meia temporada de clube, e ainda não conquistou nada. Em termos técnicos, Klopp é inegavelmente um dos melhores do mundo, mas ele tem algo a mais, algo que poucos possuem (pelo menos não no nível dele): carisma. Klopp é contagiante, seu estilo, sua personalidade e sua sinceridade são capazes de fazer um grupo de jogadores e uma torcida inteira apoiarem seus ideais e conquistarem resultados muito além de suas expectativas. Foi assim no Borussia Dortmund, tem tudo para ser assim no Liverpool. Como se já não fosse o suficiente, Klopp é inovador, consegue tirar o máximo de cada jogador, sabe usar as categorias de base, sabe garimpar muito bem as peças no mercado, administra magistralmente seu elenco e tem o respeito de todos. Ver os times do alemão em campo é sempre um grande atrativo. O “Normal-One” fica em terceiro lugar da lista.

2 – Josep Guardiola

Pep Guardiola, Bayern Munich manager

Pep Guardiola é, sem dúvidas, o técnico mais badalado do mundo. Visto por muito como um gênio entre os gênios, o espanhol marcou época com o Barcelona e uma revolução no conceito de jogo no futebol. Não distante disso, foi multicampão no clube catalão, com a incrível marca de 14 títulos em cinco anos. Chamado por alguns de Einstein do futebol, Guardiola notabilizou-se por transformar muitos conceitos da coletividade do esporte, como o jogo de posições e as funções de cada jogador. Com isso, quebrou vários paradigmas e, indiretamente, formou a base do conceito de jogo usado pelas duas últimas seleções campeãs mundiais. Guardiola é completo, sua inventividade, seu conhecimento técnico e tático, sua capacidade de tirar o máximo de cada jogador, sua forma de administrar os elencos e, principalmente, de ter o respeito de todos o credenciam como o principal técnico do mundo. Ainda assim, falta algo para que Guardiola seja indiscutivelmente o melhor: trabalhar com um menor orçamento e conseguir manter o desempenho. Até hoje ele treinou atletas no auge de suas carreiras e clubes financeiramente milionários, capazes de buscarem as melhores peças disponíveis. Seria interessante ver até onde ele iria ao trabalhar num patamar de clube diferente. Será que ele conseguiria o mesmo desempenho? Fica a pergunta.

1 – Diego Simeone

Diego Simeone Atletico Madrid

Diego Simeone é técnico do Atlético de Madrid desde 2011, e faz até então um trabalho praticamente irretocável. Mesmo com um orçamento inferior, Simeone fez do Atlético um time de mesmo nível dos gigantes europeus. Barcelona, Real Madrid, Bayern de Munique, Juventus, Chelsea, Paris Saint-Germain, nenhum deles está acima do Atlético de Madrid. O feito de Simeone é enorme, seu time joga num nível de competitividade absurdo! O entrosamento, a garra, a coletividade, a defesa praticamente intransponível são reflexos da personalidade e do espírito do técnico argentino. A alma de Simeone está no jogo de seu time de uma forma tão enraizada que contagia a todos. Isso o faz ainda mais ídolo da torcida! Como se já não fosse o bastante, Simeone ainda é taticamente irretocável, sabe garimpar no mercado as melhores peças, utiliza bem as categorias de base e os jovens jogadores, tem o grupo na mão com a maior plenitude do futebol mundial e consegue tirar o máximo de cada jogador, administra o elenco e faz o seu time jogar de uma forma tão ideológica, que parece estarmos vendo 11 Simeones em campo. Simplesmente fantástico!

Review – Deadpool: anti-herói, carismático, insano…

Referências, humor ácido e quebras da quarta parede… Esse é Deadpool.

Deadpool-posterFicha Técnica:

Deadpool

Direção: Tim Miller

Produção: Simon Kinberg, Ryan Reynolds e Lauren Shuler Donner

Roteiro: Rhett Reese e Paul Wernick

Gênero: Ação, Comédia, Fantasia

Distribuição: 20th Century Fox

Elenco: Ryan Reynolds, Morena Baccarin, Ed Skrein, T. J. Miller, Gina Carano e Brianna Hildebrand

Lançamento: 2016

 

Após fracassar como Deadpool em “X-Men Origens: Wolverine” de 2009, e também como Lanterna Verde, no filme homônimo de 2011, ambos não exatamente por sua culpa, mas pelos diretores não souberem exatamente o que fazer com tais personagens, Ryan Reynolds retorna às telas para viver o falastrão mercenário da Marvel e mudar (para melhor) sua história no mundo cinematográfico dos super-heróis. Não que Deadpool seja exatamente um herói, mas vocês entenderam.

Deadpool já começa com uma apresentação subversiva, utilizando os créditos iniciais para satirizar o próprio personagem e toda a equipe de produção. O longa tem início, de fato, com Deadpool em um táxi, indo para um confronto enquanto dialoga com o taxista. Em meio à progressão do roteiro, somos interrompidos pelo protagonista que nos conta sua própria história. Basicamente é isso, temos uma linha temporal a ser seguida, mas constantemente interrompida para nos revelar o passado que o fez chegar a já conhecida situação presente. Uma fórmula muito simples e usual, mas sustentada pelo carisma e humor ácido de seu protagonista, juntamente com os artifícios da quebra da quarta parede.

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Tecnicamente, Deadpool é bastante competente. Embora tenha um orçamento baixo se comparados aos atuais filmes do gênero (algo inclusive também satirizado pelo personagem de forma bastante cômica), consegue ser eficiente na maioria de suas cenas. A variação de ângulos é muito bem utilizada em conjunto com o personagem, às vezes a câmera ajuda na quebra da quarta parede, outras, evidencia certas “partes” do uniforme (e do corpo) do protagonista, trabalhando com suas falas cheias de acidez cômicas. Há uma notável diferença de tonalidade de cores quando Wade Wilson está em cena e quando é Deadpool quem comanda a ação. No primeiro vemos cores mais frias e uma iluminação menos atraente, ao passo que no segundo vemos cores muito mais vibrantes e uma iluminação atrativa. O slow motion também contribui para a quebra da quarta parede e para a exposição do humor físico do filme, funcionando de forma muito eficiente. Somado a tudo isso, temos efeitos especiais e um trabalho de maquiagem muito bem feitos.

O maior destaque da obra é, sem dúvidas, o seu protagonista. Deadpool é hilário, sagaz, violento e irreverente. Com isso já teríamos um personagem bastante carismático, porém o filme trabalha-o de forma bem mais completa. Ao revelar o passado de Wade Wilson, vemos sua antiga vida de mercenário, contemplamos a construção de sua história de amor com Vanessa (Morena Baccarin), sua desolação com a descoberta de um câncer terminal e o surgimento de seus poderes após tantos pesares. Ryan Reynolds brilha como Wade Wilson, construindo um romance consistente e plenamente capaz de ser o estopim para as ações e resoluções futuras do personagem. Esse ótimo background, aliado a coerência da construção da personalidade do Deadpool e o desenvolvimento do mesmo, somam-se num protagonista imponente, extremamente interessante e capaz de segurar o filme sozinho. Valeu a insistência de Reynolds em trazer o personagem para um filme solo, o ator parece ter nascido para interpretar Deadpool, desde sua forma mais engraçada até a mais violenta.

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Já os outros personagens cumprem bem o seu papel. Par romântico de Wade Wilson, Vanessa é quem mais se destaca. Vital para o protagonista e para a trama, ela tem, em sua relação com Wade, um desenvolvimento visceral que culmina num amor convincente. Vale destacar a memorável cena de troca de “carinhos” entre o casal em datas de feriados. Colossus e Míssil Adolescente Megasônico (Brianna Hildebrand) aparecem de forma deslocada. Afinal, porque somente eles entre os X-Men? Deadpool subverte esse “erro” de forma genial: “Os diretores não tinham dinheiro para escalar mais atores do grupo do Professor X”. Uma piada digna de nota. Ainda assim, ambos (Colossus e Míssil Adolescente Megasônico) cumprem seu papel quando são necessários (dar mais opção de luta no último ato). Já o vilão Ajax (Ed Skrein), é cruel e forte, da maneira mais simples e direta que os quadrinhos trabalhariam. Não tem grande desenvolvimento, apenas faz acontecer. Funciona porque ele é o objetivo do Deadpool, e é este quem queremos ver.

Deadpool é um filme de diretrizes muito claras: evidenciar ao máximo a personalidade de seu protagonista. Assumindo isso, é como se todas as escolhas do roteiro e da direção fossem no intuito de contribuir para tal. A quebra da quarta parede, os diálogos, as piadas, os escolhas das cenas, das falas… Tudo está lá com esse intuito. O propósito é claro e, nesse aspecto, consegue ser engraçado e surpreendente num nível muito bom. Não só isso, a irreverência de Deadpool é um motor chave para manter o entretenimento do espectador sempre alto, o que faz do longa um filme muito divertido. Vale ressaltar que apenas Deadpool tem a consciência de ser um personagem dentro de um filme, diferente de Wade Wilson, isso contribui para contrastar o próprio caráter de suas histórias, e suas respectivas seriedades.

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Contudo, a espinha dorsal da história é de um roteiro extremamente clichê: herói conhece a garota, se apaixona por ela, um problema os impedem de serem felizes, um vilão destrói sua vida, esse vilão sequestra a mocinha, o herói vai resgatá-la ao lado de parceiros… Ainda que consiga subverter a narrativa de uma forma bem eficiente, escrachando a própria produção e os clichês do gênero, é incômodo ver que tudo isso tem base numa espinha dorsal extremamente genérica. Há, também, uma lacuna de história perdida no filme. Em certa parte, Deadpool une o flashback ao momento presente da trama, contudo não há uma referência sequer a quando o mesmo entrou em contato com o instituto Xavier, algo que já havia acontecido no momento presente. Poderíamos subentender que nesse meio tempo ele foi procurado pelos mutantes e convidado a se juntar aos mesmos, mas subentender não é o ideal nesse caso. Mais 10 minutos de projeção poderiam preencher esse espeço e tapar esse buraco do roteiro. Ainda por consequência da base genérica sobre a qual se sustenta a história, somos premiados com um final extremamente previsível. Por sorte, o carisma e o humor de Deadpool conseguem nos surpreender, salvando a previsibilidade em momentos chaves (como não lembrar da máscara sob a máscara?).

Outro ponto fortíssimo em Deadpool são as referências. Recheado delas, a obra premia aqueles capazes de pegar todas (ou quase todas), retirando sorrisos do espectador com piadas e críticas pontuais, referenciando atores, autores, diretores, quadrinhos, e tudo mais que você imaginar, quer seja do próprio Deadpool, quer seja do próprio Ryan Reynolds, quer seja do tal “Polverine”. De fato, há referências para os mais variados gostos, sentidos e ocasiões. Recomendo estarem atentos e preparados para se deliciar com elas e aproveitar ao máximo.

Deadpool não é perfeito, não é o melhor filme de super-herói e não é a obra mais original do mundo. Entretanto, ele sabe muito bem disso, e justamente por não se levar a sério e conseguir tirar onda com basicamente tudo (seja dentro ou fora da tela), se destaca como um filme ousado, surpreendente, marcante, diferente, engraçado e, sobretudo, extremamente divertido. Para os fãs dos quadrinhos, do personagem e dos filmes de super-heróis, certamente um deleite imperdível pelas notáveis referências e pelo dinamismo, desenvoltura e carisma do anti-herói frente ao espetáculo que ele sabe estar protagonizando.

Nota: Há uma cena pós-crédito imperdível.

Cavadinha – Viva Jürgen Klopp e a espontaneidade da zueira!

Que Jürgen Klopp é um melhores treinadores do mundo é praticamente uma unanimidade. O alemão melhorou o desempenho do Liverpool desde que chegou ao Anfield e tem tudo para recolocar os Reds no caminho das grandes conquistas. Mais do que isso, o ex-técnico do Borussia Dortmund sempre chamou atenção pelo seu imenso carisma, declarações irreverentes e humanidade com a qual encara um dos trabalhos mais visados e criticados do mundo, o de treinador de gigantes do futebol mundial.

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O mais legal é que Jürgen Klopp conquista cada vez mais as pessoas pela sua humildade e espontaneidade. Ontem, após a vitória do Liverpool por 3 x 0 frente ao Manchester City, o treinador alemão, enquanto era entrevistado, mandou mais uma para sua galeria de pérolas: “I heard: Bayern lost HAHAHAHA!”, traduzindo “Eu escutei: Bayern perdeu HAHAHAHA!”, em referência a derrota sofrida pelo time de Munique, ante ao Mainz 05, poucos minutos antes. Clique aqui para ver o vídeo.

Klopp é um grande profissional, sua atitude não demonstra desrespeito frente ao Bayern de Munique, apenas revela uma espontaneidade que, hoje, não se vê mais nas pessoas. Num mundo como o atual, onde brincadeiras e expressões espontâneas estão cada vez mais condenáveis, o treinador do Liverpool é ponto fora da curva a se comemorar. Vamos levar as coisas mais na zueira e fazer do mundo um lugar menos chato?