Review – WALL-E: a Pixar em sua forma mais encantadora

A perfeita sincronia em uma obra de genuína simplicidade e complexidade.

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Ficha Técnica:

WALL-E

Direção: Andrew Stanton

Produção: Jim Morris

Roteiro: Andrew Stanton e Jim Reardon

Gênero: Animação, Ficção Científica, Comédia

Distribuição: Walt Disney Pictures

Elenco: Ben Burtt, Elissa Knight, Jeff Garlin, Fred Willard, John Ratzenberger, Kathy Najimy, Sigourney Weaver.

Lançamento: 2008

Assistir a um filme da Pixar é sempre uma experiência singular, afinal o estúdio atingiu um nível de qualidade e respeito grande, o que é completamente justificável se pensarmos que foi o responsável por obras como Toy Story, Procurando Nemo e Os Incríveis. Esperar um grande trabalho se tornou comum e nos surpreender com ele um prazer que nós, amantes do cinema, acabamos acostumados. De fato, tudo isso é verdade, e vou além, em WALL-E a Pixar consegue nos entregar uma magnífica e primorosa obra que não só extrapola a engenhosidade das suas próprias animações, como também reinventa o cinema de uma maneira geral.

Dirigido por Andrew Stanton e roteirizado pelo mesmo em parceria com Jim Reardon, WALL-E conta-nos a história do personagem título, um pequeno robozinho que tem como função empacotar e organizar o abundante lixo da Terra, que, no longínquo ano de 2805, se tornou inabitada (e inabitável) devido à alta toxicidade atingida pelo ar da Terra, forçando a humanidade a viver em Axiom, uma gigantesca nave espacial.

Tecnicamente falando, WALL-E se mostra praticamente perfeito. Partindo da premissa acima descrita, o filme começa mostrando o estado deplorável da Terra, e para tal usa uma paleta de cores e iluminação perfeitamente sincronizadas para demonstrar tal cenário. A partir do segundo ato do filme, onde o cenário principal é a nave Axiom e o espaço sideral, há uma inversão no padrão de cores e iluminação, contrastando totalmente com o primeiro ato e criando o efeito necessário para cada lugar e situação da trama. Além disso, vemos em WALL-E uma riqueza grande em detalhes, a “casa” do pequeno robô é um grande exemplo. Outros pontos fortíssimos são as transições de cenas, a trilha sonora e a variação de ângulos, todos muito bem sincronizados, proporcionando espetáculos de pura contemplação visual. Sequências que exemplificam bem esses pontos são as cenas inicias entre WALL-E e a baratinha, as interações iniciais entre nosso protagonista e EVA e a belíssima dança entre os dois no espaço.

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Dentre tantos pontos dignos de elogios, os personagens e a forma como são trabalhados, é um dos mais fortes em WALL-E. A começar pelo excepcional protagonista, que tal como nos clássicos da Disney e da própria Pixar, apresenta um trabalho de antropomorfismo, mas que nesse caso excede em muito as expectativas quanto ao resultado final. Com uma aparência dócil e olhos grandes, WALL-E já se mostra simpático, contudo o grau de expressividade que a animação consegue passar com ele é espetacular, ainda mais se lembrarmos que ele é um robô. Sua personalidade e carisma são encantadores, suas ações, motivações e resoluções são absolutamente coerentes e completamente justificáveis.

O desenvolvimento de WALL-E, desencadeado pelo seu encontro com EVA, uma robozinho enviada à Terra com a missão de encontrar vida fotossintetizante , é formidável e igualmente acompanhado pela sua parceira. Ambos constroem de maneira sutil, e totalmente crível (mesmo para dois robôs) uma relação muito interessante, que gradualmente se desenvolve num simpático romance. Mesmo os personagens secundários, conseguem um espaço considerável de atenção e trabalho, o comandante da nave tem um papel importante no terceiro ato, a baratinha serve como um alívio cômico e até um improvável vilão faz um papel muito bem justificável para a proposta do filme e os principais temas abordados pelo mesmo.

Como se não bastassem a excelência na construção dos cenários, fotografia, trilha sonora e estruturação e desenvolvimento de seus personagens, WALL-E se destaca por um roteiro riquíssimo e um enredo de temática profunda e pontualmente elaborada. A começar pelos quinze minutos iniciais, onde vemos nosso protagonista desempenhando seu trabalho, acompanhado tão somente pela baratinha, e se aventurando em desvendar a simplicidade nos objetos por ele encontrados. Em quinze minutos já estamos apaixonados pelo personagem, e o mais incrível, sem ele proferir uma fala sequer! Logo ele encontra EVA, é então que vemos seus esforços para se aproximar dela e começar a compartilhar com a mesma seus rudimentares objetos e atitudes, revelando-se cada vez mais humano! Sim, WALL-E é muito mais humano que muitos dos personagens que vemos em histórias ditas realistas. Não torcer por ele é quase impossível.

Todo o desenvolvimento da história é absolutamente coerente, a construção do mundo e o desenvolvimento da trama são perfeitamente encaixados, os diálogos inexistentes em grande parte do filme proporciona uma contemplação visual invejável, além de nos remeter a Chaplin em certos pontos. O filme também dosa muito bem sua comédia, sendo engraçado sem parecer em nenhum momento forçado, além disso, cumpre com seu propósito em todos os sentidos e, mesmo que o final não seja surpreendente, ele é satisfatoriamente e tematicamente coerente. O somatório de tudo isso trás como resultado final uma experiência de entretenimento magnífica.

Tudo que já discuti até aqui já credencia WALL-E ao nível de excelência, mas o filme vai além, seu enredo é rico e ambicioso ao tratar de temas profundos como a sustentabilidade, o consumismo excessivo, o estreitamento das relações humanas e a sujeição dos humanos frente à tecnologia criada por eles mesmos. Para isso, vemos um mundo onde as pessoas se tornaram obesas, praticamente inativas, cegas à beleza a sua volta e incapazes de se relacionarem normalmente. O fato de WALL-E e EVA serem os personagens mais humanos da história e suas atitudes resgatarem a humanidade, torna ainda mais complexo e genial o tratamento desses temas. A obra é enfática, e até mesmo poética, em mostrar o prazer da simplicidade das coisas, temos uma forte crítica e amostra que a verdadeira felicidade está nas relações humanas quando vemos o “casal” principal se deleitando ao estourar um saco plástico bolhas, acender uma lâmpada ou mesmo observar uma chama de um isqueiro. E como não citar a excepcional experiência de cultivar uma planta?

Wall-eEveLightbulb

Assistir a WALL-E é mergulhar numa aventura ímpar, contemplar um espetáculo visual deslumbrante, se deliciar com personagens magníficos e acompanhar uma grandiosa e reflexiva história. Além disso, é um filme com sutis e inteligentes referências, desde Kubrick a Bob Marley, passando por “La Vie En Rose” e “Alô, Dolly!”.  Junte tudo isso a uma experiência de simplicidade genuína, decorrente de um complexo e minucioso trabalho e o resultado final será uma obra admirável. Esse é WALL-E, a Pixar em seu trabalho mais encantador.

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Sobre Thiago

Um grão de areia no olho do furacão.

Publicado em 26 de outubro de 2015, em Review e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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